por | 30 Abr, 2019 | Cultura

A famosa Jacinta Lúcia é a “nossa” Patrícia Queirós

Todas as segundas e quartas-feiras, entra pela casa de milhares de pessoas Jacinta Lúcia. É este o nome da “mulher do Norte” que dá ainda mais vida a um dos programas mais carismáticos da televisão pública portuguesa: a “Praça da Alegria”. A Lousadense Patrícia Queirós é a atriz que dá vida a esta figura mediática e popular da nossa televisão.

O Louzadense esteve à conversa com a atriz, que falou sobre este desafio da sua carreira e do seu passado.

O mudou na sua vida com este trabalho?

A minha vida continua exatamente igual. Nas redes sociais, agita um bocadinho, mas o facto de a personagem ter uma peruca faz com que não seja reconhecida na rua. Aquela peruca é mágica. Fico tão diferente, que até na própria Praça não me reconheciam quando passava nos corredores “à civil”. Isso deu-me um certo anonimato e isso para mim é interessante.

Como surgiu a oportunidade?

A diretora da RTP viu um espetáculo no Porto e quis falar comigo. Um certo dia, uma das coordenadoras ligou-me. Eles precisavam de uma figura que viesse do público, com alguma graça e opinião sobre tudo. Simplesmente alguém que viesse de uma aldeia! E criei essa personagem e uma história, que, ao longo do tempo, passou a ser uma novela.

Onde vai buscar a inspiração para as suas personagens?

A narrativa é o que eu quiser. Tento ter antes algumas referências. Por exemplo, se vou a um casamento, tenho de ter uma lista de nomes relacionados com o evento. A partir daí, faço um enredo.
No caso da Praça, segue-se o alinhamento. Mas, na Praça, tudo foge, é tudo muito improvisado. Também faço teatro a sério, o detalhe é que é improvisado. E para haver improviso tem de haver balizas, tem de haver referências, sítio onde eu me possa agarrar, se não estou a patinar na maionese.

Sente que a sua personagem influencia as audiências?

Não tenho acesso a dados de audiências. Eu acho que a personagem é usada para criar alguns picos, e ainda bem. A verdade é que há um programa da manhã que não tem de competir com os outros. É um canal estatal de serviço público, que tem de servir o propósito de informação, de educação, de otimismo… Daí as histórias positivas de superação, mais do que alimentar as histórias das desgraças, do drama… E eu tenho orgulho em fazer parte desse universo, com o qual eu me identifico. Fazer rir as pessoas é fazer melhor à saúde e contribuir muito mais para a sua felicidade. Dão-me muita liberdade.

Como é trabalhar com Jorge Gabriel e a Sónia Araújo?

É muito fácil. Eles têm anos disto. Eles dançam ali… Aconteça o que acontecer, eles improvisam, até comigo. Eles safam-se! Na verdade, eles só sabem o que eu vou dizer quando estou em direto. Torna-se muito genuíno. É tão louco que até resulta.

Jacinta lúcia com os apresentadores da RTP Sónia Araujo e Jorge Gabriel

Lousada tem sido uma das referências da personagem, nomeadamente a sua ligação com a freguesia de Caíde de Rei?

Sim, é verdade. Nunca se falou tanto da Linha 5. Não foi intencional. Eu nunca dei uma morada à personagem, mas houve um dia em que o Jorge Gabriel perguntou e insistiu. Então, a Jacinta Lúcia disse Lousada, por dois motivos: primeiro não era possível eu dizer outra terra qualquer (se eu quero ser autêntica, tenho de saber o que estou a dizer, pois, se eu dissesse que era de Amarante, depois teria de estudar a terra de Amarante, o que me iria tirar o tapete ao improviso); por outro lado, a maioria das pessoas não sabem o que é ficção ou realidade e, por isso, acabou por se tornar um aspeto positivo para mim falar do que conheço, de alguém que é da minha terra. A personagem é fictícia, mas acaba por fazer alguma conexão com a realidade. Não foi propositado, acabou por surgir.

Sente que as pessoas agora acompanham mais o seu trabalho?

No que diz respeito às pessoas da freguesia onde eu circulo mais e família, sim, conhecem-me, acompanham… As restantes nem por isso. Lousada não me estima mais por causa disso.
As pessoas acham que só por aparecer na televisão enriqueço e deixo de falar para elas.

Mas a notoriedade televisiva é importante…

Saiu-me a sorte grande, porque para mim é trabalho, mas não enriqueço. Há uma questão muito importante: é o conhecimento. Tenho pena de ter outros trabalhos todo o ano e, de repente, só se vê mesmo a televisão. No caso de Lousada, às vezes acontece isso. Só porque se está num filme, numa série de televisão ou num programa é que de facto se reconhece o trabalho. Não é que tenha de sentir o reconhecimento por parte de Lousada. Tenho sim de ter reconhecimento do público que me vê, seja em Lousada seja onde for. Se me pergunta se tenho mais trabalho em Lousada por estar na televisão, não!

No fundo, o que sinto é que, de repente, de há 15 anos para cá, muita coisa mudou, particularmente o teatro e não só, a música, a dança… De repente, para além do desporto, que era o grande ícone do concelho, no que diz respeito à juventude, temos outra bandeira: as artes passam a ter alguma visibilidade e, nesse aspeto, sinto-me orgulhosa por fazer parte desse núcleo de pessoas. Aproveito para destacar aqui uma pessoa, por estarmos em Lousada, a professora Capitolina Oliveira, que foi e continua a ser alguém que dá de si para ajudar na formação e, no fundo, a catapultar aquelas pessoas que ela acha que podem semear novas culturas. Ela identifica onde estão as sementes, ajuda a regar e a pessoa segue por si. Eu acho que estes frutos que têm surgido em Lousada são originados por uma mente aberta, culta, como a dela, que permitiu a pessoas como eu seguir teatro. Agradeço-lhe, porque, de repente, alguém que vem de Espinho chega e faz a diferença na vida de muita gente. Cada vez mais. Eu considero-me uma embaixadora, talvez a mais velha, mas sou uma entre outros: Maria Teresa, Rita Calatré, Maria Jorge, que está em Lisboa, Miguel Magalhães, que também é médico, Ana Lúcia de Caíde, que está em Lisboa…

Lousada tem grandes artistas…

Eu chegava ao Porto e a Lisboa e lembro-me que, da primeira vez, eu dizia que era de Lousada e poucos conheciam. De repente, dizem-me “És da terra da Rita Calatré”. Já temos muitos embaixadores e não só na área do teatro…
O que sentiu quando foi agraciada com a medalha de Mérito Municipal?
Eu tinha na altura 32 anos. Estamos a falar de uma atribuição do mérito a alguém que está a começar, mais que um reconhecimento. Sinto que aquilo era um incentivo para continuar.

Eu estive sempre muito ligada à comunidade, daí esse reconhecimento, quer da freguesia, quer do município. Passaram 10 anos do grupo de teatro Linha 5, um grupo que eu criei. Para quem, como eu, ainda não tem filhos, é uma experiência a que dediquei muitas horas, mas estou a ver as flores, estou a ver pessoas a curaram depressões, a largarem o luto, a seguirem esta profissão. As pessoas agora falam para toda a gente, riem, vão ver espetáculos, fazem parte até dos espetáculaos, nomeadamente esta última peça, onde há pessoas com 80 anos, próximas dos cem. Se isto não é mudar o mundo, eu pergunto-me o que é.

Acaba por ser uma experiência muito gratificante do ponto de vista pessoal?

Não conseguimos chegar a tudo e aprendi a identificar onde posso ser mais útil. O extraordinário desde a chegada do Luís ao projeto é que se multiplicou ali um grupo de tarefeiros. Até a senhora que faz o sarrabulho tem uma importância incrível! Multiplicou-se o fenómeno de semear, gerar participação, convívio… Estás a gerar um novo sentido de comunidade, um novo sentido que nos aproxima do essencial, a entreajuda, a partilha, o contribuir por uma coisa maior! Isso também educa, cultiva e acaba por não me afastar completamente desses projetos, porque eu sei que não me dão dinheiro, mas dão-me o resto, que o dinheiro não dá.

Que momentos destaca na sua carreira?

Sempre que me colocaram desafios, sempre me senti capaz. Eu costumo dizer que é mais difícil eu emagrecer do que fazer o meu trabalho. A Praça é o maior desafio: é direto e todas as semanas. Esse desafio é o maior, sem dúvida nenhuma, e está a ser positivo, pois foi prolongado até às férias. O segundo desafio foi quando trabalhei fora de casa nas Caldas da Rainha. Basicamente, eu estive três meses fora e, como eu tinha uma ligação muito forte com a minha avó, vinha todos os fins de semana dar-lhe um beijinho. Fazer essas viagens com cansaço foi um desafio muito grande.

Vou destacar também a faculdade. Foi a melhor coisa que me poderia ter acontecido. Ainda me lembro da transição da miúda da aldeia, sem experiência, do receio das provas… Fiz as provas específicas e fiquei com a melhor qualificação feminina. Agora, passados 15 anos, toda a gente fala do teatro, mas naquela altura não. Foi giro ver o meu caminho na própria faculdade: passei a ganhar confiança, não pelo que eu fazia, mas pelo reconhecimento do que fazia, e comecei a receber convites de todo o lado.

Recorda-se de como começou?

A primeira vez que atuei, tinha eu 18 anos, foi na Casa da Cultura de Paredes. Foi a melhor forma de estrear. Eu tinha de entrar para a plateia, e a porta estava fechada. Então, tive de entrar a correr. E o mais engraçado é que não se notou que eu tinha acabado de fazer 100 metros em sprint. Era uma peça de comemoração do 25 de Abril com o grupo Nova Oficina de Teatro e Coral de Lousada.

2 Comments

  1. Maria Nnatividade Ferreira Ferreira

    Digo mais parece uma palhaçada e vem esta pessoa ganhar o dela que nos pagamos realmente a minha RTP parece macacos de imitação natividade

    Reply
  2. Paula Carvalho

    Tenho que te dar os Parabens Patricia, tu és a alegria em pessoa, alegria de muitos Portugueses que passam bons momentos a ver o teu trabalho, os que não gostam que mudem de canal, não fazem ideia o que é lutar, e trabalhar ardúo para consiguir alguma coisa na vida. tenho muito orgulho de algum dia te ter conhecido, és simplesmente um ser humano maravilhoso. Continua assim com toda essa força bjs.
    Paula.

    Reply

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