por | 13 Mar, 2020 | Cultura, Freguesias

Ana Perdigão

Romariz, Meinedo

“Gente boa” é uma expressão muito proferida por forasteiros acerca dos lousadenses. Ana Perdigão foi uma pessoa que se enquadrou nessa caracterização. Era uma pessoa bondosa e generosa. Ela deu às gerações vindouras um bem preciosíssimo: cultura popular. Falava a amigos e a forasteiros dos saberes ancestrais com a naturalidade de quem transmite conhecimentos etnográficos.

Repare-se na preciosidade desta singela coincidência: Ana Perdigão foi cofundadora do grupo folclórico As Lavradeiras do Vale do Sousa, no Natal de 1982. Algo tão grande no sentir e no propósito como acontece com a fundação de um Rancho Folclórico, tinha que surgir com esta pessoa numa época de júbilo e calor humano como é apanágio da quadra natalícia.
Com a colaboração do docente Altino Magalhães, ela escreveu o livro “ Memórias da Minha Gente – Os trabalhos do campo em Meinedo”, que foi editado em 2013 e que constitui um verdadeiro legado, depois de muitas recolhas etnográficas e folclóricas, profundas e genuínas que efetuou na freguesia e no concelho contactando com pessoas mais idosas, fazendo gravações, registos fotográficos e escritos.

Este professor, que é um filho adotivo de Romariz e Meinedo, que privou de perto com a Aninhas, como era comumente conhecida e tratada. Sobre ela refere que “toda a sua vida foi dedicada e ligada aos trabalhos do campo, nomeadamente aos trabalhos do linho, do vinho e do milho, bem como às danças e cantares de antigamente, aos usos e costumes da sua querida terra de Romariz, Meinedo que amava dedicadamente”.

Recordando uma frase da saudosa Aninhas, o professor Altino Magalhães cita-a: “os trabalhos do campo, as tradições e aos usos e costumes do meu povo, à moda antiga, estarão para sempre no meu coração!”

Conhecia como ninguém os trajes da região, os instrumentos musicais tradicionais da sua terra e todos os utensílios e alfaias agrícolas bem como as tradições ligadas às desfolhadas, ao ciclo do linho, às ripadas e espadeladas, às vindimas e lagaradas, bem como aos trabalhos ligados à safa do centeio, entre muitos outros.

A preservação de tradições seculares é uma dádiva que Romariz, Meinedo, Lousada muito ficaram a dever a Ana Perdigão e sua família, principalmente ao seu pai, Joaquim Perdigão, que era um homem devoto das etnografias da ruralidade. Ele e seus irmãos, Júlio e Delfina, cedo conviveram com os usos e costumes que a modernidade foi eliminando nas formas materiais mas cuja riqueza persiste viva pelas memórias e saberes transmitidos às gerações vindouras.

Ela teve no seu marido Augusto Moura um braço direito, um tronco de amparo e uma mão cheia de carinho. Ambos foram timoneiros no Grupo Folclórico e Cultural das Lavradeiras do Vale do Sousa, que ajudaram a fundar. Este rancho é um bastião de perpetuidade da essência e genuinidade de um povo.

A Aninhas, como era carinhosamente tratada por quem lhe era próximo, perpetuou através da voz e dos fazeres inúmeros hábitos e segredos, culturas e práticas culturais que aprendeu em menina e moça na casa da Ramada, propriedade dos herdeiros do advogado Joaquim da Silva Moura, que também foi presidente de camara em Lousada. Naquele lar onde foi caseiro seu pai Joaquim Perdigão, ouviu e memorizou lendas e cantares, rezas e mezinhas, contos e ensalmos típicos das sociedades rurais dos séculos XIX e XX.

As culturas da vinha, do milho e sobretudo do linho não tinham segredos para esta senhora que era uma apaixonada pelas danças e cantares, pelos usos e costumes da nossa terra, da sua terra. A lavoura e a gastronomia estavam no centro dessas suas paixões culturais. Por isso fundou um dos restaurantes mais renomados da região.

Conhecedora da gastronomia da sua terra, desde as merendas que se levavam para os campos, até àquela que estava ligada aos grandes dias de Festa, principalmente nas Festas religiosas como eram o Natal, a Páscoa, os batizados, as comunhões e o casamento.

Culminando as suas referências acerca desta protagonista, Altino Magalhães recorda, com água na boca e um brilhozinho nos olhos postos nos tempos idos: “Ela confecionava um anho assado como ninguém!…”.
Trabalho e comemoração estavam ligados e a Aninhas gostava disso dessa labuta e da celebração que isso trazia. Nas vindimas, nas desfolhadas, nos trabalhos do linho, havia quase sempre um epílogo festivo, uma comemoração pelo extenuante feito. Havia cantigas e danças e folia, com partidas pregadas com matreirice, uma espécie de brincadeiras entre adultos. A arranca do linho em julho era uma dessas fainas festivas, que ainda hoje é preservada em terras magnetenses por legado da Aninhas e seus consortes.

Também a arranca da cebola e a tiragem das batatas eram outras labutas agrícolas de muita canseira mas de igual regozijo e festança. Outra faina rainha, talvez aquela que mais gerações envolve e mais tradições envolve ainda hoje é a desfolhada do milho. Cantava a Aninhas Perdigão assim: “não há desfolhadas animadas/sem milho rei…/se vem uma espiga/Rapariga/Cumpre se a lei/um abraço tens que dar/não te podes escusar”.

E as vindimas? Oh as vindimas, congregavam as forças coletivas com a pujança da solidariedade que o tempo foi moendo e dizimando. Trabalhar por carolice em prol de uns comes e bebes acompanhados pelo calor humano e pagode.

As datas festivas, fossem pagãs ou cristãs, eram muito apreciadas e assinaladas a preceito pela Aninhas. Exemplo disso era o Dia dos Enganos, no primeiro de Abril. A Páscoa e o Natal eram duas das suas datas prediletas. Mas eram as Romarias as suas festividades preferidas. Entre as que mais apreciava estava a Nossa Senhora da Saúde, em Bustelo, e o São Gonçalo, de Amarante. Muitas vezes as romarias e as colheitas tinham algo em comum: as merendas. Ir em romaria ou ir em trabalho era motivo para levar merenda e esta fazia se acompanhar de alegria expressa em cantares e danças.

Os trajes de diferentes ocasiões e de distintos estratos sociais foram também pela Aninhas documentados e o grupo folclórico que fundou muito beneficiou disso. O rigor dos trajes em função de cada recriação de usos e costumes foi um legado desta senhora.

A Aninhas nasceu em 7 de janeiro de 1944 e faleceu em 21 de novembro de 2015. Ficou a saudade e um legado imensurável ao qual os seus correligionários de várias gerações garantem continuidade.

José Carlos Carvalheiras

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