por | 14 Mar, 2020 | Grandes Louzadenses, Sociedade

“Certamente que o nosso sentido de união e responsabilidade irá reforçar-nos enquanto sociedade” Pedro Machado

Os últimos dias não têm sido fáceis, em particular para aqueles que têm responsabilidades autárquicas. Pedro Machado, presidente da Câmara Municipal de Lousada, tem estado em contacto permanente com responsáveis pelo Ministério da Saúde, com a Direção-Geral de saúde e outras entidades, no sentido de parar a propagação do novo coronavírus. Leia a entrevista, que o ajudará a perceber melhor a situação da agora considerada pandemia em Lousada.

Qual é o ponto de situação atual em relação ao coronavírus em Lousada?

De acordo com as últimas informações que tenho, recolhidas junto da Autoridade Local de Saúde, o número de infetados tem estabilizado, mantendo-se Lousada sem casos desde domingo à noite até ontem. É uma situação poderá mudar, mas até ao momento são os dados de que tenho conhecimento.

Na quarta-feira soube-se do primeiro infetado em Lousada. O que fez a autarquia após ter conhecimento desta situação?

Muito antes de termos o primeiro infetado, já tínhamos feito uma série de procedimentos, sugeridos pela DGS, que visavam a informação e esclarecimento cabal sobre a doença, modo de transmissão, prevenção e modo de atuação em caso de suspeita. No dia que soube do primeiro caso, contactamos as autoridades de saúde disponibilizando-nos para o que fosse necessário, contactamos a empresa em causa e as pessoas sinalizadas ou com suspeição, fazendo esta ponte entre os diversos organismos, numa lógica de prevenção e apoio às pessoas em causa e seus familiares.
Tendo em conta que a filha do paciente em questão frequenta a escola EB 2,3 Dr. Mário Fonseca, quais foram as medidas implementadas para prevenir o possível alastramento do vírus na comunidade escolar?
Convém ter presente que os municípios não têm competências para encerrar escolas. Essa determinação foi da DGS, que terá feito a avaliação de toda a informação disponível e agido em conformidade. Dado que a situação evoluiu com maior gravidade durante o fim de semana, não se colocou em causa a questão da escola estar aberta e, como medida preventiva, na noite de domingo, como todos sabem, foi decretado o encerramento dos estabelecimentos escolares, ou seja, tentaram com esta medida drástica prevenir o problema. De acordo com a informação que disponho, nenhum aluno do referido Agrupamento de Escolas Dr. Mário Fonseca foi infetado.

Conhecendo este problema, por que é que a autarquia tomou logo as medidas preventivas que acionou apenas na segunda-feira, após a imposição do fecho das escolas?

Convém voltar a lembrar que os municípios não têm competências para encerrar escolas. E seria completamente irrazoável encerrar outros equipamentos municipais sem ter informação fidedigna das autoridades de saúde que justificassem medidas tão gravosas. As respostas devem ser proporcionais às problemáticas e espero até que tenhamos ido mais além do que seria necessário. Como disse relativamente às escolas, grande parte dos serviços que encerramos na segunda-feira, também estiveram encerrados no fim de semana e foi no fim de semana que o maior número de casos surgiu e até agora não tem havido uma evolução negativa. O importante é termos noção de que as medidas implementadas pelos diversos organismos foram bem tomadas, mas compreendo que haja sempre quem não as compreenda, que fomos exagerados. Oxalá que esses críticos venham a ter razão. Seria uma boa notícia para todos nós. Acima de tudo, temos que nos basear no entendimento técnico de quem domina e tem competências no assunto, ou seja, a DGS.

O que levou ao encerramento súbito das escolas por parte da DGS no domingo à noite, quando dias antes já era conhecido o problema?

Volto a frisar que foi no fim de semana que a situação aumentou e, por esse motivo, as escolas já estavam fechadas. O encerramento foi certamente uma medida preventiva que recebemos com muito bom grado por parte da DGS e Ministério.

Uma vez que o COVID-19 já era conhecido há dois meses, não poderiam a autarquia e as entidades governativas ter tido uma atitude mais proativa em relação a este problema?

Devolvo-lhe a questão com outra pergunta. Teria algum sentido encerrar escolas e serviços públicos quando o caso surgiu na China? Relembro que o primeiro caso de um Português infetado, nem foi em Portugal mas sim no Japão no final do mês de fevereiro. O primeiro caso em Portugal foi no dia 2 de março e não em janeiro.

Reforço que na Câmara Municipal de Lousada, no dia 7 de fevereiro, reuniu o Conselho Local da Ação Social, que conta com todas as Juntas de Freguesia, Agrupamentos, Instituições, Bombeiros, GNR, entre outros parceiros, e procedeu a uma apresentação e sessão de esclarecimentos por parte de um membro técnico do ACeS Tâmega III – Vale do Sousa Norte sobre o Covid-19 com toda a informação e procedimentos a adotar e com a presença de pessoal técnico no CHTS. Nessa altura, já haviam sido distribuídas informações preventivas junto das escolas, empresas e outros parceiros.

Julgo que temos feito o necessário trabalho preventivo e também não podemos deixar de pensar nas consequências económicas que abarcam estas decisões. Aliás, este é um problema que me preocupa muito e já estamos (Lousada e Felgueiras) em contactos com o Gabinete do Sr. Primeiro-Ministro para encontrarmos soluções que possam mitigar as consequências nefastas que este problema nos trouxe em termos sociais e económicos.

Que medidas a autarquia está a tomar para acautelar a situação que se vive no atual momento? São suficientes?

As decisões que tomamos podem ser alteradas mediante a evolução favorável ou desfavorável da situação. Não vamos facilitar e por isso já adotamos muitas medidas, previstas no nosso plano de contingência, e estamos preparados para outras caso a situação se altere, de modo que os serviços essenciais não bloqueiem.

Esta situação é nova para todos, desconhecida e por isso não há soluções mágicas, mas julgo que em parceria com as restantes instituições centrais estamos a fazer o que nos compete.

Após dois dias de isolamento social do concelho por causa do novo coronavírus, qual é o balanço que faz, tanto no que diz respeito à reação da população como em relação ao objetivo pretendido.

Julgo que a população tem compreendido e agradeço bastante toda a colaboração prestada. Estou certo que saberemos lutar contra este problema de forma unida e concertada.

Os Bombeiros Voluntários de Lousada não têm informação, nem formação, nem equipamentos para dar resposta a este problema. A autarquia pondera ajudar a instituição neste momento difícil. De que forma?

Já reunimos o Conselho Municipal de Proteção Civil e um dos problemas que abordamos foi a questão do equipamento de proteção individual. Antes desta reunião, já tínhamos pedido explicações ao Comando Distrital e entretanto foi reforçado. O problema não é propriamente de falta de material, mas o receio de que o stock acabe. Tive oportunidade de transmitir essa preocupação à Sra. Ministra da Saúde e creio que não vamos ter problemas a esse nível. A autarquia está disponível para tudo aquilo que os Bombeiros de Lousada necessitarem, tal como sempre esteve.

E em relação a outras forças vivas do concelho?

Temos estado em contacto permanente com todas as Juntas, associações e demais instituições e sempre disponíveis para esclarecer a população.

Os lousadenses começam a ter um sentimento de “segregação” por outras entidades e cidadãos de outros concelhos por causa do isolamento social no concelho. O que pensa sobre isto?

Esse é um facto que lamentamos e estamos a atuar para o reverter. Ainda hoje enviamos uma carta aberta a todas as Instituições de Ensino Superior, uma vez que tivemos conhecimento de que os estudantes oriundos do concelho de Lousada e de Felgueiras, que frequentam o Ensino Superior em diversos pontos do País, têm sido coagidos a não frequentar as salas de aulas e demais espaços dos respetivos equipamentos educativos, alegadamente devido à problemática do COVID-19, e manifestamos publicamente a indignação do nosso concelho perante essas medidas discriminatórias, manifestamente ilegais, lesivas dos interesses e dos mais básicos direitos fundamentais das pessoas e que devem envergonhar as Instituições que as adotaram. Exigimos, assim, a imediata revogação de todas as medidas e atos discriminatórios contra os alunos de Lousada, sob pena de, não o fazendo, este Município apresentar queixa-crime contra as respetivas instituições e os seus responsáveis e apresentar os respetivos pedidos de indemnização cível.

Recordo que Lousada não está de quarentena! Lousada tem alguns cidadãos de quarentena, ordenada pelas Autoridades de Saúde, tal como outros municípios têm. As pessoas de Lousada estão de prevenção como devem estar todas as pessoas, tendo atenção a comportamentos de higienização e de segurança, mas devem poder trabalhar normalmente e fazer o que é imprescindível.

Que implicações poderá ter para o futuro do concelho este problema?
Certamente que o nosso sentido de união e responsabilidade irá reforçar-nos enquanto sociedade. Agora dependendo da extensão do problema, não só em Lousada mas no país e no mundo, a minha preocupação também é a economia local e por isso, como já disse, estamos em contacto com o Gabinete do Sr. Primeiro-Ministro para encontrarmos soluções que possam mitigar as consequências nefastas que este problema nos trouxe em termos sociais e económicos.

Está satisfeito com a forma como o governo e a DGS estão a lidar com esta situação, em particular no concelho?

Até ao momento e de uma forma geral, tenho tido a máxima atenção e compreensão por parte do Ministério da Saúde, na pessoa da Sra. Ministra, do Sr. Presidente da ARS, do Delegado de Saúde e do Sr. Diretor do ACeS, o que tem sido importantíssimo para que tudo corra bem nesta altura de intensa pressão.

Como têm sido estes últimos dias para si enquanto presidente da autarquia?

Difíceis. Muito difíceis. Não é fácil tomar decisões drásticas que afetam uma multiplicidade de pessoas, o seu quotidiano e as suas rotinas, sobretudo quanto está em causa a sua própria saúde e a dos nossos filhos. Mas tem sido muito reconfortante receber imensas mensagens de apoio, incentivo e solidariedade.

Que mensagem deixa à população neste momento mais difícil para o concelho?

Esperança! Iremos conseguir ultrapassar este problema, desde que todos nos unamos e demonstremos compreensão.
Aproveito para fazer um apelo. É nas alturas mais difíceis que vem ao de cima o melhor e o pior da natureza humana. Tenho a clara convicção de que a racionalidade e a solidariedade vão imperar, em detrimento da irracionalidade e do egoísmo. É importante que percebamos todos que hoje o doente é um nosso concidadão e amanhã podemos ser nós. Por isso, temos que estar unidos e ajudar quem precisa. E isso vai ser fundamental à medida que os doentes vão tendo alta médica.
Contem connosco! Nós contamos com todos!

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