A pandemia vista pelos jovens: Dificuldades em retomar o convívio social

Os jovens, frequentadores dos espaços de lazer e habituados ao convívio com os amigos, viram-se obrigados ao confinamento e à alteração das rotinas. Como estão eles a viver esta pandemia? Foi o que O Louzadense quis saber junto de três jovens lousadenses.

A vida de Luciana Martins, de Aveleda, mudou a partir de março. Apesar dos constrangimentos, reconhece que o confinamento deveria ter começado mais cedo. Ainda assim, considera que tivemos sorte ao evitar uma situação semelhante à de Espanha ou Itália.

Com as aulas presenciais e as atividades de âmbito social que desenvolvia suspensas, esta jovem virou-se para o computador, que a ajudou a continuar o seu trabalho. Conversadora e extrovertida, Luciana viu-se obrigada a manter a distância com os amigos, continuando cautelosa relativamente ao convívio social: “Anda não frequentei nenhum café nem nenhum restaurante, nenhum sítio público”, diz. Mostra-se crítica em relação à ocupação dos cafés, o que, na sua opinião, demonstra alguma leviandade por parte das pessoas: “As pessoas não estão a usar máscara, os estabelecimentos não estão a ter o cuidado com o que se lhes pede, o gel desinfetante não existe em todo o lado, não estão a respeitar o afastamento obrigatório. Estou com receio de que isto não fique por aqui e que possa existir uma segunda vaga daqui a uns meses”, revela.

“Custa-me um bocadinho perceber que ainda há pessoas que não acreditam que há pobreza” – Luciana Martins

Foi difícil para Luciana ficar em casa, principalmente à sexta e ao sábado. Mas mais difícil ainda foi olhar à sua volta e ver as dificuldades das pessoas. Por isso, não ficou parada. Respondendo àquele que considera ser um dever ético e moral, Luciana começou a desenvolver atividades sociais em parceria com a Junta de Freguesia e o Município: “Custa-me um bocadinho perceber que ainda há pessoas que não acreditam que há pobreza”, diz. Atividades essas que desenvolveu “por gosto, não por obrigação”.

Luciana Martins

Avessa à publicitação das atividades sociais que desenvolve, receando que a possam acusar de aproveitamento político, vai, contudo, apelando ao sentido de justiça das pessoas, sensibilizando-as para a importância de comportamentos que mudam a vida dos outros. “No início, recebi algumas mensagens das diretores das escolas. Nessa altura, não tinham como imprimir as fotocópias, nem como aceder a computadores.” Em parceria com a Junta de Freguesia, fizeram-se contas e foi possível ajudar muitas crianças e jovens.

Ajuda alimentar aos mais carenciados

“Mas depois as coisas começaram a complicar-se, pois os casos de Covid começaram a aumentar e surgiu a necessidade de apoio alimentar. Eu fiz questão de fazer esse trabalho”, conta. Tudo começou quando, juntamente com alguns voluntários, fez a entrega de máscaras junto da população: “Na entrega, começamos a notar que havia pessoas a passar muito mal, ou porque os seus empregos fecharam, ou porque agora recebem menos com o lay-off, ou porque têm as crianças em casa e as despesas aumentaram. Se na escola algumas crianças passavam dificuldades, onde tinham pequeno-almoço, almoço e lanche, agora poderiam não ter estas refeições”, conta. Por isso, Luciana e os voluntários prepararam os cabazes alimentares, pedindo às pessoas que ligassem a pedir ajuda, sem vergonha. Com o apoio “crucial” da Junta de Freguesia, são dezoito as famílias sinalizadas e ajudadas. “Temos um banco de reserva para as famílias que apareçam tardiamente e que não tenham acesso a meios tecnológicos, ou que vivam mais afastadas”, informa.

Movimento Sénior parado

O lamento maior de Luciana é em relação ao movimento sénior. “Os idosos e as crianças são os grupos etários que mais nos fascinam e preocupam. Tenho muitos idosos que se sentem sozinhos, passam o dia sozinhos e agora é muito difícil para mim e para as minhas voluntárias, que são incríveis. Custa-me muito saber que essas pessoas se encontram em casa e que não podem estar juntos com as outras. Não podem conviver nem jogar o Boccia. É o projeto que mais me custa ver parado, pois sei a falta que faz àquelas pessoas”, diz.

Preocupada com a situação económica de Portugal, após a pandemia, Luciana diz que não aguentaríamos uma segunda vaga, especialmente as pequenas empresas. Por isso, recomenda prudência aos lousadenses e respeito pelas indicações da DGS.

“Há pessoas que não têm medo e isso preocupa-me” – João Henrique Fernandes

João Henrique Fernandes está em teletrabalho desde março, saindo apenas para as compras e dar uma corrida ou volta de bicicleta. A televisão, que no início via, acabava por criar ainda mais medo e ansiedade, pelo que se limitou a acompanhar a evolução dos números da pandemia.


João Henrique Fernandes

Os mais jovens, na opinião de João perceberam logo que se tratava de uma doença perigosa e recorda a Gripe A, que implicava grandes cuidados, “mas nada como este vírus”. A preocupação maior é, no entanto, com os mais idosos: “Eu até digo que antigamente eram os nossos pais a obrigarem-nos a ficar em casa, agora acontece o contrário, com a minha mãe e com o meu pai”.

Ao logo deste tempo, houve sempre um amigo ou outro, mais corajoso, que o desafiava para sair, mas João resguardou-se sempre: “Há pessoas que não têm medo e isso preocupa-me, pois podem trazer o vírus a todos nós”, avisa.
Habituado a frequentar os bares e a restauração, este jovem reconhece que, nestas áreas, o desconfinamento será difícil: “As pessoas agora saem, pois está bom tempo e calor. Anda muita gente a pé, as pessoas vão às esplanadas, mas estão distanciadas. Num bar, isso é mais difícil”, diz. João espera que a situação possa normalizar no final do ano.

JP Rally vai sair em papel

Adepto de desporto automóvel, com o confinamento e as provas canceladas, João foi um dos impulsionadores de um novo projeto: a revista JP Rally. Depois da prova em Sever do Vouga, a última do campeonato nacional de Rallycross, tudo parou, até que surgiu a ideia para este novo projeto: “Eu e os meus colegas lançamos um novo projeto, a revista JP Rally, com organização da JP Rally e da OMS. Lançamos a primeira edição da revista. Estamos a preparar a segunda”, conta. Os apoios entretanto surgidos tornarão possível a edição em papel, “numa quantidade mais pequena inicialmente, mas queremos que, na segunda, seja muito mais, pois temos muita gente a pedir a versão em papel”, diz.

Campeonato Virtual de Rally Cross

Entretanto, para ocupar o tempo, criaram o Campeonato Virtual de Rally Cross. “Já vamos na terceira edição. Tivemos muita adesão, cerca de cinquenta inscritos, por campeonato. Todos os dias correm 5, que vão passando para as finais. Conseguimos patrocinadores que aderiram”, explica. Sem Rally de Portugal, foi a forma que encontraram de atenuar a tristeza dessa ausência. “Mas estamos a contar com o Rally Cross em julho, ainda que seja à porta fechada, mas já não é mau, pois podemos fazer umas imagens para levar o rally a todo o mundo”, refere.

Festas Grandes fazem-lhe falta

Mas a maior dor de João é não poder viver as Festas Grandes este ano, não tanto pela noite ou pela música, mas por não poder estar com os emigrantes e os amigos que estão afastados. “Normalmente, estávamos juntos nos dias das festas. Vai custar-me imenso”, lamenta.

Este jovem reconhece que o comércio e as atividades que vivem das festas também terão muitas dificuldades e espera que sejam ajudados. “Estão todos a adiar as festas para 2021, sem sabermos se haverá cura para a Covid 19. Será que em 2021 vai haver festa? Tenho fé que sim e vamos aproveitá-la em dobro”, afirma.

João acredita na força da juventude para levantar novamente o país, embora reconheça os efeitos graves na economia. “Vimos cidades completamente paradas, como Paris, Londres”, diz. Apesar de tudo, esta pandemia poderá ter efeitos positivos na forma encaramos o futuro: “Pensar mais no presente e proteger o mundo para que as coisas não voltem a acontecer, pois é o ser humano que cria estas coisas”, deixa o aviso.

Assim, deixa uma mensagem de otimismo: “Temos de pensar que o amanhã será melhor que hoje e temos que trabalhar para isso. Aprender a conviver com o vírus e, acima de tudo, ter fé e esperança”.

Confinamento foi um “cortar de asas”

Rui Gonçalves é bombeiro-sapador e estava habituado ao convívio, do qual se viu privado. Foi um “cortar de asas” inesperado, que mudou completamente a sua vida. “Nós, jovens e não só, através de mensagens, pelas redes sociais, vamos falando, mas não é a mesma coisa que dar aquele abraço, aquela palavra…”, refere. Para Rui, os pequenos gestos de afeto e a naturalidade do dia a dia, de repente, ganharam uma importância que, muitas das vezes, não era reconhecida.

Rui Gonçalves

Imposto o distanciamento social, Rui e os amigos ainda tentaram uma forma diferente de estarem juntos: “Estivemos dois meses sem nos contactarmos fisicamente. Chegamos a fazer um convívio, com cada um no seu carro. Acabou por acontecer num sítio calmo, mas não é a mesma coisa a que estamos habituados”, diz.

Reabertura dos bares e discotecas difícil

Com amigos na área dos bares e discotecas, Rui lamenta que o reinício seja muito difícil. “Há famílias que dependem desse setor e só com os eventos de fim de semana é que é possível ganhar algum dinheiro”, explica. Enquanto os bares não abrirem, os jovens vão encontrando forma de estarem juntos, mas Rui reconhece que o divertimento não é o mesmo. “Vi uma entrevista do Primeiro-Ministro que isso pode acontecer até ao final do ano, o que será muito difícil. É difícil criar afastamento social nesses espaços”, afirma.
Se alguma lição temos a tirar desta pandemia, segundo este jovem, é que devemos olhar para o futuro: “Se continuarmos a viver desta forma, a poluir, no futuro, os nossos filhos e os nossos netos poderão ter problemas, pois tudo depende de como deixamos o mundo. As pessoas têm de ter essa consciência. Eu vejo máscaras no chão, entre outras coisas. As pessoas têm de começar a perceber que é difícil construir algo melhor se não corrigirmos o que até agora estamos a fazer mal”, sustenta.

“No início, estávamos assustados” – Rui Gonçalves

Enquanto bombeiro-sapador do Porto, assistiu a muitas mudanças: “Mudamos os nossos turnos, para não haver tanta rotação de pessoal dentro da nossa unidade e passamos a fazer 12 horas em turnos de 24, tendo mais horas de descanso. Como é óbvio, a forma como trabalhávamos era diferente, para não nos cruzarmos com os que estavam de serviço. Tínhamos também a descontaminação constante de quartos e de viaturas, pois tudo o que era utilizado era logo desinfetado, e um gabinete de crise”, explica. Foram muitas as mudanças às quais teve de se adaptar: “No início, estávamos assustados. Mesmo não sendo da linha da frente, tínhamos uma importância muito grande, pois tínhamos intervenções invasivas das pessoas e não sabíamos se tinham Covid ou não. Agora não já estamos mais à-vontade”, explica.

Na cidade do Porto, tem observado gente cautelosa e mais descontraída, apesar de, no geral, considerar que a cidade reagiu bem. “Fomos certamente uma das cidades mais bem preparadas a nível de proteção individual. Acho que toda a gente respeitou as medidas, conseguindo levar o barco a bom porto”, considera.

Em relação ao futuro, avisa que as pessoas não devem pensar que isto acabou. “Pode ainda haver uma segunda vaga. Conviver sim, se puder ser, em grupos pequenos. Tudo voltará ao normal se toda a gente cumprir com estas medidas”, avisa.

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