por | 9 Nov, 2020 | Opinião

SARS-CoV-2: o acelerador disruptivo da sociedade

Ética, Inovação e Desenvolvimento na transição do “novo normal” para o “normal” no mundo de amanhã.

Opinião de Carlos Manuel Nunes

Carlos Manuel Nunes

Vive-se um “novo tempo” ao qual dizem chamar-se “novo normal”. Se o tempo se renova a cada fragmento de segundo é fácil aceitar que seja “novo” a cada instante. O “normal” é algo que é regular, habitual, frequente. Dizer-se “novo normal” transporta-nos para a rutura completa do “anterior normal” para este “novo normal”, que passará a ser simplesmente “normal”. Será mesmo assim? É possível definir o “normal” do mundo de hoje? Antecipar o que será “normal” no mundo de amanhã? E qual será o contributo da inovação e desenvolvimento neste “novo normal” para o “normal” no mundo de amanhã?

Muito mudou nos últimos meses com o impacto da pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2, causador da doença Covid-19. O país entrou em estado de emergência; foram tomadas medidas severas de confinamento da população e da atividade económica; sentiram-se agudas perturbações no funcionamento da economia; constrangimentos na prestação dos serviços públicos; resguardo da vivência familiar, em particular, e da sociedade, em geral. Viram-se praças e ruas desertas; aeroportos repletos de aviões estacionados; eventos cancelados ou adiados; empresas a fechar e o desemprego a escalar; controlo das fronteiras e da livre circulação. O país e o mundo em suspenso, parecem tornar obsoletos conceitos recentes de gentrificação e turistificação.

Uma consequência imediata da pandemia tem sido o aumento da utilização de tecnologias digitais. O confinamento social, para salvaguardar a saúde e o bem-estar da população em geral, acelerou a utilização de ferramentas digitais de interação comercial e social, voltadas para “substituir” o contacto presencial e manter a atividade económica e social. As empresas que não dispunham de sítios e lojas online viram-se forçadas a implementar rapidamente soluções de comércio eletrónico. Aplicações de videoconferência parecem ter penetrado no dia-a-dia das empresas e da vivência social. Soluções tecnológicas de ensino à distância – EdTech – crescem sem precedentes. Surgiu uma imensidão de soluções tecnológicas de base colaborativa, como foi exemplo a tech4covid19.org. Respostas sociais e empresariais construídas no auge da incerteza dos efeitos da pandemia e da necessidade de garantir serviços mínimos de funcionamento da atividade económica e de apoio social, principalmente aos mais vulneráveis. Todo um ecossistema que reagiu agilmente aos desafios da pandemia e à construção de estratégias de recuperação, manutenção, início e reinício de negócios.

A primeira reflexão a reter da adoção acelerada de tecnologias digitais na atividade e na vivência das empresas, dos cidadãos e das comunidades é a de que não existe tempo para a experimentação. Rapidez e vigor são mandamentos de resposta à crise. Sim, mas na primeira fase-chave da crise (responder), porque nas seguintes (recuperar, prosperar) não é suficiente.

As diversas fases que constituem a resposta à crise

Assim, numa primeira fase, a de resposta, aqui designada por “fase cirúrgica” – importa estancar, diminuir e estabilizar os efeitos da crise. Para as empresas, em particular, resulta na imediata constituição de um gabinete de gestão da crise, de modo a adaptar a organização à circunstância de crise e aos sucessivos momentos da crise, cabendo-lhe, entre outras: definir o plano de contingência e outras medidas de resposta; centralizar a comunicação; atualizar informações e diretivas que permitam adaptar a organização; apoiar a recolocação da força de trabalho em locais remotos e seguros; implementar ações de formação, bem-estar e compensação para os trabalhadores afetados; compreender os choques da crise do lado da oferta e da procura, em toda a dimensão da cadeia de valor da organização; gerir reclamações e condições contratuais que protejam os interesses da organização; avaliar as necessidades de fundo de maneio e liquidez; adotar medidas de resguardo e preservação da reputação da organização; identificar medidas de apoio governamental de resposta à crise e suporte à atividade da organização; desenvolver e implementar um plano de resposta proporcional à crise e à resiliência da organização.

Numa segunda fase, a de recuperação, aqui designada por “fase medicinal” – importa ancorar as respostas à crise em estratégias de gestão disruptivas, logo inovadoras, que aportem confiança, conforto e segurança. Não bastará agilidade e rapidez no esforço da transformação digital da atividade económica e social. Essa é a condição primária para “sobreviver” aos efeitos da crise: o choque inicial. Dar o passo em frente implica desenhar soluções colaborativas, multi e interfuncionais, organizadas de forma diferente, capazes de responderem com agilidade e rapidez às “novas” necessidades, mas também com a maturidade e o acerto de pensamentos diferentes para essas “novas” necessidades. Uma organização diferente do trabalho – como dissemos multi e interfuncional – tende a resultar em pensamentos, processos e soluções diferentes. Possibilitam respostas enriquecidas, testadas entre pares e unificadas pela organização, permitindo maior agilidade, rapidez e responsabilidade, no teste do pós-pandemia.

Numa terceira fase, a de prosperar, aqui designada por “fase da estética” – importa apreender todas as correlações existentes entre o “anterior normal” e o “novo normal”, para a sustentação de relações sociais, éticas e políticas de bem-fazer e do interesse comum. A força epidemiológica do vírus SARS-CoV-2 mostrou o quanto a organização das sociedades é vulnerável e o quanto dependemos uns dos outros para produzir e nos proteger. Ganham relevância os termos definidos por Aristóteles: práxis (ação), poiesis (criação) e techné (regras e procedimentos para se produzir algo). Uma “nova” axiologia (hierarquia de valores) emerge através do conhecimento sensível e do pensamento estético, aliando a prática e a teoria na produção do conhecimento e na reorganização da sociedade. Através da nova vaga de tecnologia tudo estará conectado. Haverá a colaboração de «muitos para muitos», na transformação do mundo num sítio melhor, com seres humanos mais completos, em termos de mente, coração e espírito, e movidos por valores ao invés do consumismo desenfreado e imediato. Objetivos de sempre: confiança, conforto e segurança. Fim último: saúde, bem-estar, felicidade.

Dar-se-á a transição do “novo normal” para o “normal”, muito pela habituação da introdução acelerada das tecnologias digitais e robotizadas no quotidiano das empresas e da vivência social; pela adoção avisada de medidas preventivas; e pela adoção coletiva de desígnios de sustentabilidade. Neste “novo normal” estamos a desenhar a missão, a visão e os valores para o “normal” no mundo de amanhã.

A missão, visão e valores para o “novo normal”

Esta transição (acreditamos disruptiva) implica abertura de espírito e mentalidade para o crescimento, inversamente à resistência para a mudança. Estudo, inovação e desenvolvimento são a chave para fazer crescer os negócios e não se quedar por simplesmente resistir à crise com modelos de gestão e processos conhecidos, logo mais confortáveis. Para vencer a crise e a incerteza é necessário, mais do que nunca, a capacidade de definir e comunicar claramente uma nova visão estratégica da empresa, que seja transformadora e orientada pela e para a mudança, capaz de liderar a construção do “normal” para o mundo de amanhã. Para além de esclarecer a força produtiva e os stakeholders daquilo que quer ser – “visão”, alinha em uníssono a organização para esse desiderato, conferindo-lhe agilidade na reação, vigor na ação, inteligência na criação e inovação na metodologia de intervenção. Antigos procedimentos não são mais uma vantagem competitiva das empresas, ou porque foram suspensos devido à Covid-19, ou porque a utilização crescente de tecnologias digitais ditou a sua obsolescência. De uma ou outra forma, estão em curso alterações significativas em todos os domínios da sociedade. O vírus SARS-CoV-2, causador de uma “paralisia mundial” sem precedentes, veio acelerar a internet das coisas e a transformação digital das empresas, dos modos de produção, comercialização, distribuição e prestação de serviços. Tudo pela pronta resposta ao combate direto e indireto à Covid-19. Tudo muito rápido, claramente favorecido pela supressão de barreiras formais e burocráticas à pronta intervenção e necessária inovação tecnológica. Reflexão: as barreiras burocráticas são inimigas da inovação.

Neste “novo normal” coexistem oportunidades únicas para inovar e prosseguir caminho. Em consequência, há a necessidade e haverá a motivação para desenvolver tecnologias de gestão, organização e funcionamento disruptivas. Há que mudar estilos e procedimentos para uma nova realidade, implementando estruturas e práticas que permitam prosperar. Uma nova revolução industrial está aí. A conetividade que a internet das coisas (IoT) traz à produção de bens, mobilidade, comunicação, análise, informação e inteligência artificial, precipitou a Indústria 4.0 para o imediato e as Smart Cities para o curto prazo, quando antes se perspetivavam para o médio-longo prazo. Tecnologias físicas e digitais combinam-se entre si, não apenas nos modos de produção e mobilidade, mas também na prestação de serviços e análise de dados, permitindo suportar decisões mais informadas e conduzir a ação das organizações, da sociedade e da nossa vida quotidiana. Não se trata apenas de explorar a realidade virtual, mas a de acentuar o uso da realidade aumentada, seja ao serviço da saúde, da educação, da mobilidade, da produção industrial, da prestação de serviços, do entretenimento e lazer dos cidadãos.

As tecnologias disponíveis tornam as operações existentes mais rentáveis e eficientes em todas as áreas de negócios, pelo que sem surpresa dar-se-á impulso generalizado à robotização de processos e tarefas, em substituição da ação e exposição humana. Uma emersão de novos desafios económicos e sociais, sobre os quais a sociedade se vinha a preparar, ainda que de forma moderada, e que agora, no breve trecho, se verá confrontada com a sua antecipação massificada. Tal como em anteriores revoluções industriais, o impacto desta é transversal às indústrias, empresas e comunidades, proporcionando a melhoria das operações organizacionais, da produtividade, do crescimento económico e da inovação social, mas esta com maior potencial para afetar não só a forma como trabalhamos, mas também a forma como vivemos e nos relacionamos uns com os outros.

Tal mudança tem implicações, desde logo, no mundo do trabalho. Não apenas no trabalho em si, mas também em quem faz o trabalho e onde o trabalho é feito. Como observou Thomas Friedman, “o que se passa é que o trabalho está a ser desligado dos empregos, e os empregos e o trabalho estão a ser desligados das empresas, que se estão a tornar cada vez mais plataformas”.

O teletrabalho tornou-se uma das principais ferramentas de trabalho

Numa pesquisa rápida no Google Trends podemos observar que o tópico “teletrabalho” disparou com o início da pandemia em Portugal. Num inquérito informal lançado por uma gestora de recursos humanos, na plataforma LinkedIn, sobre como escolheriam os usuários da plataforma trabalhar no pós-pandemia – em casa, no escritório, meio a meio – as mais de mil respostas distribuem-se por 48% “em casa”, 30% “no escritório”, 22% “meio a meio”. Reflexão: o teletrabalho não é de hoje, mas com a pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2 veio para ficar e marcar a tendência para uma década.

O trabalho está a mudar. Os empregos estão a ser reinventados. O local de trabalho é em toda e qualquer parte que combine dois requisitos: segurança e conetividade. Ora, é isto mesmo: impulsionado pela aceleração da conectividade, novos modelos de talento e tecnologias cognitivas estão a mudar o trabalho e a reinventar os empregos, criando uma “força de trabalho nómada”, onde o trabalho é redefinido para criar valor e significado para as organizações, empregados, partes interessadas e comunidades.

No domínio social importa acautelar a condução de ações que visem transformar o mundo num sítio melhor para todos, com políticas focadas na construção de uma sociedade de bem-estar e felicidade das pessoas, mais justa, inclusiva e sustentável. Uma vez mais, a internet das coisas (IoT) está ao serviço da construção de cidades inteligentes – Smart Cities, podendo ajudar os cidadãos a melhorar a sua qualidade de vida e a aumentar a sustentabilidade através de iniciativas baseadas em dados e orientadas para a tecnologia, com soluções inovadoras nos domínios da governação, mobilidade, segurança, ambiente, educação, cultura, saúde e economia. As urbes devem ser atrativas para residentes e visitantes, com ruas seguras, espaços verdes, sistemas de trânsito multimodais avançados, redes de energia autossustentáveis, infraestruturas avançadas de suporte à atividade económica, serviços integrados e demais comodidades significativas para quem vive e para quem visita. Uma visão holística de governação das cidades na sua dupla condição de valorização e desenvolvimento sustentável do território e da comunidade, que promove o melhor da vida urbana e minimiza os incómodos da vida citadina, entre eles os conhecidos processos de gentrificação e turistificação.

Ora, uma das atividades económicas que mais sofreu, e continua a sofrer, com a crise da pandemia por Covid-19 é a atividade turística. Um setor que vinha a registar um crescimento assinalável na exportação de serviços e consequente contributo para o PIB.

Crescimento da exportação de serviços e contributo para o PIB. Fonte: https://travelbi.turismodeportugal.pt

E agora, como será o futuro do turismo?

A primeira condição para responder à questão é pensar o que deve ser o Turismo do Futuro. Mais do que um modelo de hipóteses é a definição de metas e ambições para conjugar os interesses das pessoas, com os interesses empresariais e das comunidades, em última instância com o bem do planeta. Várias categorias de análise e intervenção ganham destaque para a construção do Turismo do Futuro: Turismo Inteligente, Turismo Sustentável, Turismo em Rede, Turismo Autêntico, Turismo Responsável, Turismo Solidário, Turismo de Confiança. Em todas haverá o objetivo de realizar o potencial estratégico de misturar o encanto da hospitalidade tradicional, pessoa-a-pessoa, com tecnologia de ponta – experiência virtual/aumentada – e, para além de criar valor económico, criar valor para a sociedade, respondendo às suas necessidades e desafios.

O Turismo do Futuro passa por inovar a oferta de serviços, em experiências centradas nas necessidades e expectativas do ser humano, alimentadas por soluções digitais de última geração, valorizadas pela existência de boas infraestruturas de saúde e segurança.

Uma coisa é certa: o futuro pertence aos nativos digitais. Os interesses, motivações e exigências destes são claramente diferentes das gerações anteriores. O turismo estava a enfrentar problemas estruturais que precisavam de ser solucionados. Os fenómenos de turistificação estavam a ameaçar a sustentabilidade da própria atividade. Esta é uma oportunidade única para repensar e redesenhar a indústria turística. É expectável que o setor continue a crescer em oferta renovada, indo de encontro ao comportamento do turista, cada vez mais agente na construção da sua própria experiência e interessado numa experiência de qualidade que lhe aporte conhecimento e proporcione benefício para a comunidade. O futuro do turismo será um turismo de valores, de solidariedade e de sustentabilidade. A qualidade deverá prevalecer sobre a quantidade. O turismo de qualidade será fundamental para a economia das comunidades menos desenvolvidas, ao invés do turismo de quantidade que se queda pelas atrações turísticas fomentadas pela “fama”. Reflexão: o Turismo do Futuro será o Turismo de Qualidade, que proporcione experiências únicas, autênticas e sustentáveis, desenhadas exclusivamente para o perfil de interesses do público-alvo.

Número de casos positivos registados. Fonte: http://gisanddata.maps.arcgis.com

Infelizmente a Covid-19 já provocou mais de 1,2 milhões de óbitos e quase 47 milhões de pessoas infetadas em todo o mundo. Este é o impacto ultradramático da pandemia, com consequências sociais devastadoras. Enquanto meio mundo (ainda) procura uma vacina eficaz para combater o vírus – “fase cirúrgica” de resposta, outro meio está concentrado em desenhar e implementar as ações de recuperação. É na perturbação aguda da crise que emergem ideias e ações disruptivas. O vírus veio acelerar os processos de inovação e desenvolvimento da sociedade. Saibamos, todos, aproveitar esta perturbação para corporizar uma reforma conjuntural em prol de uma sociedade mais sustentável, mais segura, mais tecnológica, mais amigável, mais próspera. Reflexão: este é o tempo da ética, da inovação e do desenvolvimento.

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