por | 2 Mai, 2022 | Louzadense com Alma

Arnaldo Alves Esteves: O grande bairrista das tigelinhas da Festa Grande

Os Bombeiros Voluntários de Lousada, a caça e a Festa Grande foram algumas das grandes paixões de Arnaldo Alves Esteves, nascido em 27 de Julho de 1909, no lugar do Picoto (Silvares) e falecido em 24 de Maio de 1991. Tinha um sentimento bairrista muito forte e manifestava-o sobretudo na dedicação que colocava em vários atos preparativos da festa Grande em Honra do Senhor dos Aflitos. A tradição das tigelinhas, à qual Arnaldo Alves Esteves se dedicou durante mais de três décadas, ganhou fama pelos país fora e constitui ainda hoje uma imagem de marca da grande festividade lousadense.

Era brioso e justo em tudo o que fazia, nomeadamente na arte da construção civil, que aprendeu com o seu pai, Domingos José Alves. Após o falecimento deste, fez sociedade com o seu primo e primeiro chefe dos Bombeiros de Lousada, Alberto Alves de Sousa Freire. Mas Arnaldo Esteves não demorou a estabelecer-se por conta própria, o que aconteceu quando casou com Alzira Pereira Faria, de Vilar do Torno (Lousada).

“Até na caça, que tanto adorava, o meu pai era uma pessoa justa e democrática, pois não disparava sobre coelhos sem lhes dar uma oportunidade de fugirem”, afirma Luís Augusto Esteves, um dos seis filhos.

“Na véspera do dia de abertura oficial da época de caça não dormíamos por causa dos trabalhos de preparação dos cães, do farnel, dos cartuchos e das armas”, acrescenta este filho, que se recorda de idas até Trás-os-Montes para a caça ao coelho.

Arnaldo Alves Esteves foi um dos primeiros bombeiros da corporação de Lousada, à qual se dedicou com verdadeira devoção e um sentido cívico impecável, durante cerca de seis décadas, desde 1930 até quase à sua morte em 1991. “Ele incutiu nos filhos o espírito de missão dos bombeiros e muitas vezes éramos quatro daqui de casa a correr para o quartel, quando a sirene tocava, e o grande comandante Amílcar Neto ao ver-nos ao longe metia-se ao volante do carro de incêndio à nossa espera”, relata Luís Esteves, segundo o qual, “uma boa parte do corpo ativo dos bombeiros era do Picoto e do Loreto, nomeadamente os Carvalheiras, o Augusto Tijolo, o Antero Barros, e aquele que para mim foi um dos melhores bombeiros de sempre, o Libório Marques”.

Hóquei em Patins na televisão do “Clube”

O desporto era algo que também prendia a atenção e o gosto de Arnaldo Alves Esteves. Aos 20 anos entrou para o primeiro clube de futebol que houve na localidade, o Lousada Futebol Clube, nas décadas de 1930 e 1940. Ele fez parte da equipa que estreou o primeiro campo de futebol oficial, construído em Eidos Novos (Pias), em 1932.  A estreia desse «ground» (como se dizia na época) aconteceu no dia 18 de Junho de 1932, com um jogo entre o Lousada e o Lagoense Foot-Ball Club. A equipa da vila venceu por 2-1, com golos de «Pinga» e «Farrapa», segundo a crónica do Jornal de Lousada na semana seguinte, na qual destacava o desempenho dos jogadores «Carriço», «Mascote», «Alvarito», «Farelo», «Rabeta» e o guarda-redes «Ponteiro».

“O meu pai foi desde muito novo conhecido por «Rabeta»”, revela Luís Esteves, que explica que essa alcunha “veio do nome de uma peça de louça de barro que era muito usada antigamente”. Este filho recorda que “numa Serragem da Velha aqui na Vila houve alguém que dizia «Ó velha, no teu testamento a quem deixas a tua picareta?» e alguém respondia «hei-de deixá-la ao Arnaldo Rabeta»”.

Mas a modalidade predileta deste lousadense não era o futebol. Segundo o seu filho Luís Esteves, “o hóquei em Patins era o desporto preferido do meu pai, que nos levava com ele para ver jogos de Portugal, numa das primeiras televisões que houve em Lousada, no Clube Artístico Lousadense, que ficava no piso de cima do edifício onde está o restaurante Brasão e em baixo funcionava a tipografia do Jornal de Lousada, onde o meu irmão mais novo, Zé Manel, trabalhava”.

A engenhosa produção das tigelinhas

De todas as facetas deste lousadense, a de bairrista apaixonado pela Festa Grande deixou memórias nas gerações seguintes e em publicações diversas. No livro do Centenário da Festa Grande (CML, 2005) é sublinhado o seu empenho em diversos atos dos festejos em honra do Senhor dos Aflitos, de quem era especial devoto.

“O Antoninho Padeiro, que foi o organizador da Festa Grande durante muitos anos, tinha no meu pai um especialista na produção das tigelinhas, que tinha  muita ciência e dava muito trabalho, desde a procudção da cera, com cebo de animal que recolhiam nos talhos e a parafina, que vinha de drogarias, o pavio, que se colocava no fundo das tigelinhas de barro, que eram confecionadas na fábrica de Nogueira do Belmiro Marques, outro antigo grande festeiro de Lousada”, recorda Luís Augusto Esteves. O seu pai era o coordenador de todo o processo, que integrava vários ajudantes numa arrecadação da capela do Senhor dos Aflitos e que principiava pela limpeza das tigelinhas, que eram reutilizadas na festa do ano seguinte. “Elas eram colocadas ao sol para amolecer e depois eram raspadas com uma espátula própria, para serem depois enchidas com a cera nova, para na manhã do domingo da Festa Grande serem distribuídas às centenas pelo Jardim onde eram acendidas à noite”, descreve.

Com a dedicação laboriosa desses lousadenses nas décadas de 1950 e seguintes, Lousada manteve e engrandeceu uma tradição que  ainda hoje é uma imagem de marca e uma referência fundamental da Festa Grande.

Carlos Silva

ADEUS A UM DOS PRODUTORES

DOS FARÓIS DA FESTA GRANDE

Há poucos dias faleceu prematuramente Carlos José Nunes da Silva, com 58 anos. Era um dedicado fornecedor da Festa Grande Lousada, com o seu irmão Pedro Renato, dos belíssimos baldes de papel, também conhecidos por faróis e que foi uma arte que herdaram do antigo bairrista lousadense Ginho Marques. Nesses faróis de papel colocam-se as tigelinhas que iluminam o Jardim do Senhor dos Aflitos na noitada de domingo, e que nesta edição de Louzadenses com Alma damos especial ênfase ao recordar um dos principais percursores dessa lindíssima e garrida tradição.

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