por | 20 Jul, 2022 | Louzadense com Alma

Joaquim Carvalheiras, o “pai” da Banda Musical

Era um homem austero na aparência e em alguns modos até, mas o que mais se destacava na sua pessoa era a integridade e honradez. Foi para muitos o “avô do Picoto”, para outros mais “o pai da Banda”. Entre os defensores da Banda Musical de Lousada, ele foi dos mais abnegados, mas também a Associação Desportiva de Lousada tinha a sua admiração e paixão. Em ambas as coletividades teve filhos em plano destacado.

Foi um hábil sapateiro e tamanqueiro com oficina em casa, no lugar do Picoto, e loja comercial junto à antiga padaria de Justina Alves (Justininha), no antigo largo dos Correios (em meados do século passado o posto dois Correios e Telecomunicações estavam sediado no início da Rua Dr. Afonso Quintela)

Aprendeu música com maestros da Banda de Lousada nas primeiras décadas do Século XX: António Braz da Costa, Leonardo Gonçalves e Joaquim da Costa Chicória.

“Era um grande músico”, diz Rodrigo “Nico” Fernandes, que também tocava contrabaixo, ao lado de Joaquim Carvalheiras nos arruados e nos coretos onde a Banda dava concertos. Mas Joaquim notabilizou-se mais como diretor (contramestre) do que como executante. Era avesso a protagonismos e quase tudo o que defendia em prol da banda filarmónica louzadense tinha a concordância e colaboração do triunvirato de que fez parte com José Teixeira Nunes (“Zeca da Virgínia”) e Rodrigo Fernandes (pai). Parece que estava tacitamente instituído que Joaquim e Zeca eram contramestres e tratavam das coisas correntes, enfim, da gestão, e Rodrigo Fernandes mais o maestro de cada temporada davam conta das questões musicais.

António Ferreira Vieira, empreiteiro de Nogueira, aposentado, de 74 anos, lembra-se de Joaquim Carvalheiras como “homem respeitador e respeitado”, salientando que “a sua palavra era sagrada em qualquer situação ou assunto, quer fosse da Banda ou da vida do dia-a-dia”. Este antigo clarinetista recorda-se de entrar para a Banda de Lousada em 1964, com 18 anos, e sempre que queria falar nas primeira reuniões em que participou, era impedido por Joaquim Carvalheiras: “ele virava-se para mim, levava o dedo indicador aos lábios e dizia «Xiu!» e eu calava-me. Aquilo repetiu-se algumas vezes até que um dia fui ter com ele e perguntei porque é que eu não podia falar e ele, muito sábio, disse que no primeiro ano é para ouvir”.

As falhas de músico e de futebolista

Embora não fosse um sentimento tão arrebatador como o sentimento que tinha pela Banda, Joaquim foi aficionado da Associação Desportiva de Lousada. Era comedido nas expressões e nos atos de afeto e como tal não era homem de demonstrações do gosto que tinha por ver os filhos jogar com as cores da ADL. Mas gostava. Talvez até mais do que vê-los e ouvi-los tocar na Banda, pois nesta ele não tolerava falhas e ralhava-lhes, mas no futebol, bem no futebol podiam errar à vontade, não era arte, era desporto.

Nunca fez questão de os obrigar a ser músicos ou jogadores, cada um rumava ao destino que melhor lhes aprouvesse, conforme as suas qualidades e gostos. Olívio, o mais novo, reconhece tudo isso. Este foi um exímio jogador de futebol e de hóquei em campo. Mas de quem o pai mais gostava de ver jogar era do filho Augusto, que ficou conhecido no futebol pela alcunha “Maia”, tirada pelos amigos de um futebolista internacional muito famoso na época. Disse-me António das Ascensão Garcês, em bom tempo, que “o Maia foi um jogador fabuloso, muito melhor que eu”.

Joaquim Afonso Carvalheiras nasceu no lugar da Boavista, em Silvares, a 30 de Novembro de 1903, filho de João Afonso, carpinteiro de profissão, e Maria da Assunção Bessa Leal, da freguesia de Real, do concelho de Amarante. Foi batizado pelo padre Augusto Videira no dia seguinte, na igreja de Silvares, sendo padrinhos o tio Joaquim Afonso da Silva e a esposa deste, de seu nome Balbina de Jesus, ambos de Ponterrinhas (Silvares).

 Em 17 de Maio de 1925 o jornal de Lousada noticiava assim o casamento de Joaquim e Carolina: “Consórcio – Realizou-se no último domingo na freguesia de Santa Eulália da Ordem, deste concelho, o casamento do Sr. Joaquim Afonso Carvalheiras, benquisto operário de sapataria, com a menina Carolina de Jesus Cunha. O noivo é um rapaz muito trabalhador e possuidor dos melhores sentimentos, e a noiva uma menina muito prendada, motivos mais que suficientes para lhes profetizarmos um futuro cheio de felicidades”.

Vasta prole de Carvalheiras

A avó Carolina era de Santa Eulália da Ordem, onde teve sete irmãos: Antero, José Albino, João (Lamoso), Joaquim (Ermesinde), Manuel, Faustina (Santa Cristina) e Joana da Cunha.

Os filhos José Maria, Paulo e Artur também tocaram instrumentos da classe das tubas e bombardinos. O quarto músico do clã Carvalheiras, Augusto “Maia”, foi percussionista (tocava caixa). Os irmãos Luís e Olívio foram bombeiros e artistas da construção civil e Heitor foi o que levou os estudos mais adiante e formou-se contabilista, tendo sido presidente da Junta de Freguesia de Canelas e da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Também radicado em Vila Nova de Gaia, Paulo Afonso da Cunha destacou-se como mentor da fundação da Associação de Cultura Musical de Lousada, o braço institucional da Banda Musical de Lousada.

E das raparigas, o que dizer delas? Foram quatro as filhas de Joaquim e Carolina: a saudosa Justina do Loreto, a mais velha; depois, a Augusta, radicada em Rio Tinto desde o casamento; seguiu-se Maria José, a tia Zeza, a mais tia de todas, que velava pelos sobrinhos como se fosse mãe deles todos; e a Lúcia, a mais nova, a senhora da casa dos Carvalheiras, no coração do Picoto.

Joaquim Afonso Carvalheiras enviuvou a 11 de Janeiro de 1975 e faleceu a 18 de Setembro de 1978. Na história ficou como um venerável cidadão que mereceu a mais subida consideração e a mais pura estima dos seus conterrâneos.  

Por ser figura querida da sociedade local, o Jornal de Lousada (28-09-1978) noticiou o seu falecimento, que ocorreu a 18 de Setembro de 1978, referindo-se na notícia que “acometido de doença súbita na tarde do último domingo, foi conduzido ao Hospital de São João, no Porto, o nosso estimado assinante, senhor Joaquim Afonso Carvalheiras, morador nesta Vila”.

Reza também a crónica que os tratamentos revelaram-se infrutíferos e veio a falecer em casa, no dia seguinte. O funeral contou com a presença da Banda Musical de Lousada, que lhe prestou uma última homenagem.

1 Comment

  1. Carlos Graf

    Uma boa demonstração dessa figura proeminente da vila de Lousada, conheci pessoalmente, embora o meu relacionamento fosse um pouco através dos filhos,onde se jogava á bola quando aí ia passar férias, pessoa digna de figurar nesse livro

    Reply

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