por | 25 Out, 2022 | Região

Vindimas 2022

A palavra “vindima” caracteriza a colheita da uva. É o ciclo final para um povo que deseja que o suor do seu trabalho transforme-se em bom vinho. As vindimas sofreram grandes mudanças, fruto das inovações. Será que o trabalho manual ainda é conservado? O processo já foi mecanizado? O que se pode esperar do vinho? Foram algumas das questões colocadas ao Engenheiro Manuel Oliveira, da Casa da Bouça e à Engenheira Joana de Castro, da Quinta de Lourosa. 

Há longos anos, o conhecimento e o desejo do homem foram utilizados na construção de patamares implementados de vinhedos. As paisagens tornaram-se esplêndidas e, além do mais, através da implementação persistiu uma economia sustentável. 

Geralmente, a vindima é realizada no mês de setembro. Mas diversos fatores têm vindo a influenciar a data de colheita e, cada vez mais, se faz mais cedo. Ao longo das épocas, foram várias mudanças registadas nesta atividade. Parte do trabalho manual ainda se mantém vivo no universo vitícola, porém, alguns pormenores foram ultrapassados pelas máquinas. 

O Louzadense entrevistou dois engenheiros do meio: Manuel Oliveira da Casa da Bouça e Joana de Castro da Quinta de Lourosa. Como será possível verificar adiante, existem diferenças em vários aspetos. Ambos conservam traços do trabalho manual, contudo em percentagens diferentes. 

Engenheiro Manuel Oliveira 

Casa da Bouça 

Manuel Oliveira

Após um breve passeio pelos hectares, Manuel Oliveira respondeu com precisão a todas as questões. Este ainda mantém o método tradicional, isto é, o manual. “Tenho um grupo de pessoas que, ao longo dos últimos 20 anos, se encontram ao dispor da casa”, introduz. O engenheiro entra em contacto com as mesmas e, de imediato, mostram-se disponíveis para a colheita. 

Tudo é colhido manualmente, mas para o próximo ano será introduzida a máquina. Naturalmente, os custos de mão de obra são caros e com a obtenção da mesma irá haver uma redução substancial em termos de gastos. Na Casa da Bouça, o método utilizado, até então, é o manual derivado da empresa que compra a uva ainda não estar equipada. Porém, apesar desse fator, o próprio acredita que a vindima se torna mais interessante com as pessoas ao redor. “Há convívio, lanche instituído e jantar no final da época de colheita”, afirma. 

Casa da Bouça

Mas será que a tradição que existe ainda é igual? Não. Segundo o próprio, tal acontece devido a um conjunto de fatores como: a rentabilidade da exploração. 

As expectativas deste ano foram superadas pela positiva. A Casa da Bouça obteve mais 20% em relação ao ano transato merecido por várias razões. A boa nascença e o sistema de rega encaminharam a uma boa produção, na medida em que são elementos imprescindíveis no processo. “Eu tenho dois sistemas: gota a gota e israelita, logo, as videiras nunca tiveram problema de stress hídrico. É feita a rotação por todas as parcelas e houve água em abundância nos períodos mais quentes”, explica. 

“Este ano o que entrou em adega foram os vinhos com teor de álcool acima da média, em relação aos anos anteriores, com uma acidez baixa e com o pH equilibrado”, refere. Desta forma, conforme o próprio, vai haver vinhos frescos e interessantes para um ano em que as perspetivas eram más devido às temperaturas elevadas. 

Manuel considera que a vindima é bastante emocionante porque todos os anos é diferente. “Ao longo dos anos, têm-se verificado uma antecipação desta”, declara. Contudo, apesar desta declaração, em 2022 vindimou mais tarde pois houve um atraso na maturação. 

Casta Arinto
Casta Arinto

O engenheiro ressalta alguns fatores bastante importantes: o estado sanitário das uvas; a limpeza e desinfeção de todo o material; e o cuidado em todas as etapas. Este primeiro, respetivamente, pois uma uva em bom estado sanitário é consequência de um produto final melhor. A limpeza e desinfeção influencia também o resultado e o ser minucioso distingue um bom vinho de um menos bom. 

“É uma forma de vida”, refere acerca da importância da vindima para si. Manuel considera o trabalho agrícola duro e, desta forma, caracteriza os agricultores como resilientes. O processo de plantar, nascer e crescer é maravilhoso. Porém, a parte menos boa é que este em poucas horas pode ir por água abaixo e todo o esforço é desperdiçado. 

Casta Espadeiro
Casta Espadeiro

Relativamente ao que mais aprecia: o sorriso no rosto dos vindimadores; o carinho dos vindimadores a cortar os cachos; e a comparação habitual dos vindimadores face a anos anteriores. 

Para Manuel Oliveira, este foi um ano bom tanto a nível de produção como de qualidade e, por conseguinte, leva-o a querer novas estratégias de negócio. Desta forma, pretende evoluir no setor da comercialização através da inovação. Até ao final de 2022, irá lançar um produto diferente e tem a forte convicção que resultará. 

Engenheira Joana de Castro 

Quinta de Lourosa

Eng. Joana de Castro

Joana de Castro é responsável pela enologia e gestão da Quinta de Lourosa. A simpatia e a amabilidade são características intrínsecas desta que se mostrou disponível para abordar alguns assuntos. “A propriedade possui 27 hectares e, portanto, parte da vindima é com máquina e outra parte é manual”, afirma acerca dos métodos. 

Quinta de Lourosa

A Quinta de Lourosa, cada vez mais, sente a necessidade de fazer a colheita através da mecanização pois a mão de obra está mais difícil e a preços elevados. A vindima mecânica fica mais barata, mas de qualquer forma é bastante complicado arranjar pessoas que queiram realizar este trabalho. Segundo a própria, até há quatro anos atrás ainda havia jovens que antes do início da escola vinham até à vindima para ganhar algum dinheiro. Contudo, hoje em dia, não se verifica o mesmo e a engenheira fica na dúvida se é derivado aos mesmos ou aos pais. 

Componente manual

“Os pais não querem que os filhos gostem da agricultura porque é um parente pobre na sociedade”, sublinha. Esta situação acaba por ser preocupante em termos sociais, económicos e ambientais. Desta forma, é necessário desmistificar este ponto de vista que tem tendência a piorar. 

Mão de obra

No entanto, metade da colheita é feita de forma tradicional pois existem diferenças. “Para alguns vinhos consideramos que é importante manter a componente manual”, reforça. Este ano vigente, apenas tiveram mão de obra externa. Assim sendo, Joana considera que a tradição com as pessoas da terra a cantar e a fazer festa está a cair ano após ano. 

A Quinta de Lourosa trabalha muito a vinha, isto é, realiza muitos ensaios. Segundo a engenheira, são um caso extraordinário na componente de uva. De tal forma, a produção está sempre acima das expectativas e este ano não foi exceção. 

“Foi um ano curioso”, declara. Houve temperaturas muito elevadas e algum défice de água e, devido a tal, vai existir diferença no tipo de vinho que oferecem. Os equilíbrios de álcool e acidez estão bem, no entanto a componente aromática será mais neutra pois o sol torrou um bocado os aromas. A previsão da engenheira é que o vinho não seja tão exuberante aromaticamente.  

“A vindima é o culminar de um ano na vinha e muitas vezes uma má decisão na altura da vindima pode pôr tudo em causa”, salienta. Assim sendo, esta época representa o ponto alto de todo ciclo da videira. 

Ao contrário do anterior entrevistado, Joana considera a vindima um trabalho leve e social pois as condições da propriedade são muito boas. “Tenho pena que não haja mais pessoas pois não é um trabalho forçado, por exemplo, não precisam de andar com o cesto às costas”, afirma. A conversa é constante e cada um pode andar ao seu ritmo, levando em consideração também o tempo da empresa. Aliás, de acordo com a própria, indivíduos que sofrem de problemas de foro mental deveriam fazer vindimas. 

“Gosto de ver as uvas a entrar na adega sãs, sem podridão, com bons equilíbrios de álcool e acidez”, conta. Para Joana de Castro, o processo de transformação e o comer uvas fresquinhas ao longo da colheita são das coisas que mais aprecia na vindima. 

Uvas a entrar na adega

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