por | 6 Nov, 2023 | Abril Louzadense, Cultura

Os bravos resistentes lousadenses

Lousada não voltou a ser a mesma localidade depois do comício de 24 de outubro de 1973 nos Bombeiros Voluntários, que despoletou o crescimento do movimento pró-democracia e a luta contra o antigo regime. Se o espírito revolucionário a favor da democracia alastrava pelo país como gasolina, em Lousada isso acontecia em lume brando até ao histórico comício, que funcionou como rastilho para propagar os ideais democráticos. Mas, nos primórdios, houve bravos cidadãos que deram de si à causa democrática. Nalguns casos pagando caro por isso.

 Há quem diga que houve duas Lousadas distintas, uma antes e outra depois daquele evento, tal a mudança que a partir do “comício nos Bombeiros” se operou na sociedade local. Embora tivesse sido um evento chave para a expansão dos ideais democráticos, importa relevar os antecedentes e os antepassados que conduziram a esse desiderato.

Apesar da crescente importância e força do movimento democrático português (MDP), o sistema ditatorial procurava dominar a sociedade portuguesa com repressão, mas também com operações de cosmética política, como foi o caso da “Primavera Marcelista” encetada anos antes revelou-se efémera e que aconteceu no período inicial do governo de Marcelo Caetano, entre 1968 e 1970, no qual se operou uma certa modernização social e uma liberalização política, criando a expectativa ilusória de reforma do regime em Portugal.

Em Lousada, essa ilusão reinava por entre o tradicionalismo das instituições, lideradas por pessoas afetas ao regime salazarista. A União Nacional e entidades congéneres, onde se incluía a Igreja, tutelavam as normas e os costumes, num contexto onde os ímpetos democráticos dos lousadenses foram demovidos durante décadas.

Ainda assim, remando contra a corrente, vários defensores da democracia fizeram-se ouvir, ler e sentir. A colagem de cartazes reacionários acontecia de quando em vez, fruto da atividade “subversiva” de pessoas próximas da tipografia Heraldo, de Manuel Pinto de Sousa. Isso motivou que as autoridades procedessem à suspensão de várias edições do respetivo jornal, que foi publicado entre 1930 e 1942.

Também por causa de uns cartazes esteve detido António Afonso da Silva, pai dos tipógrafos lousadenses António Miguel e Manuel Afonso da Silva. No caso em apreço, ocorrido em 1951, aquele lousadense borratou com excrementos de animais os cartazes de propaganda da candidatura situacionista do general Craveiro Lopes à Presidência da República, afixados na praça municipal.

Outro recurso dos contestatários locais foi a pintura de paredes, com palavras de ordem contra o regime. Esses e outros atos causou-lhes perseguições, detenções e condenações sumárias e arbitrárias.

Pessoas como Manuel Pires Teixeira da Mota, Clemente Ribeiro de Bessa, Antero Alves Moreira, Arnaldo Mesquita, o já referido António Afonso da Silva, o seu irmão José Afonso Carvalheiras e outros mais, sentiram na pele e no destino as consequências dos seus atos revolucionários. Pelo menos 45 pessoas de Lousada foram acossadas pela autoridade repressiva, segundo escreveu o professor Silvestre Lacerca no artigo “Contributo para o conhecimento sobre os cidadãos de Lousada referenciados nos arquivos da PVDE-PIDE-DGS”, publicado na Oppidum – Revista de Arqueologia, História e Património, do Município de Lousada, em 2016.

Foi precisamente Manuel Pires Teixeira da Mota o presidente da mesa no célebre comício aqui retratado na edição anterior do nosso jornal. Considerado unanimemente como um dos mais ativos combatentes locais contra o regime salazarista, ele terá sido o primeiro lousadense a inscrever-se no Partido Socialista Português, em 1931. A polícia vigiou-o e deteve-o várias vezes, a primeira das quais redundou na sua prisão na cadeia do Porto, em 1927. Foi libertado, mas Manuel Mota não se demoveu das lides democráticas e voltaria a sentir as agruras dos calabouços, desta vez em 1942. No julgamento, Manuel Mota foi defendido pelo advogado e poeta de Santo Tirso, Alexandre Córdova. A sentença ditou que fosse deportado para Timor, “para onde muitos foram deportados e de onde não voltaram”, refere o filho Rui Mota. O degredo não se consumou, por mérito das diligências de José Teixeira da Mota, pai de Manuel e fundador do Jornal de Lousada. Os “cordelinhos foram puxados” por um alto dirigente bancário da nação, de seu nome Cunha Leal, que estava casado com uma senhora da Casa de Sá (Santa Eulália de Barrosas) afilhada de José Teixeira da Mota.

À guisa de coincidência e ironia do destino, refira-se que foi um magistrado lousadense (Rodrigo Vieira de Castro, que foi diretor da cadeia do Porto) que esteve na génese da lei de bases da polícia especial que daria origem à PIDE. Em 1918, na sequência da reestruturação da polícia civil e do seu agrupamento num único corpo nacional, a Polícia Cívica, foram criadas a Polícia Preventiva e a Polícia de Emigração, pelo Decreto-Lei n.º 4 166 de 27 de abril de 1918. Tinha competência pela vigilância, prevenção e investigação de crimes políticos ou sociais. Decorreu desta a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), a polícia política portuguesa entre 1945 e 1969, responsável pela repressão de todas as formas de oposição ao regime político do Estado Novo, passando a PIDE-DGS entre 1969-1974. Após a Revolução de 25 de Abril de 1974, esta organização foi extinta e vários dos seus elementos foram presos.

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