por | 16 Fev, 2024 | Cultura, Educação, Sociedade

Uma “carrinha” transportou até Lousada o mundo na forma de livros

MEMÓRIAS DA BIBLIOTECA ITINERANTE DA GULBENKIAN

Não se tratava apenas de livros, o que a biblioteca itinerante trazia, nos idos anos das décadas de 1970 e 1980, quando as distrações eram escassas e a população (sobretudo os jovens) estavam sempre ávidos de novidades, que eram escassas no tempo em que tudo era lento e distante, mas quiçá mais intenso e repetido. A carrinha cinzenta Citroen HY, que aparcava uma vez por mês no “Largo dos CTT” (atual Praça Dom António Meireles), trazia o melhor de dois mundos, o real e o imaginário, na forma de livros.

O ditado que diz “Se a Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Mamoé” aplica-se ao fenómeno social e cultural das biblioteca itinerantes. De facto, estas foram motivadas sobretudo pelo facto de grande parte das populações não terem tido antes contacto com este tipo de serviço, tornando-se essencial que a biblioteca se deslocasse até elas. O cerne deste serviço era o leitor e as suas efetivas necessidades, desde a falta de tempos livres à escassez de meios de deslocação. Por outro lado, devido ao valor material do livro, este era acessível, na época, apenas às classes mais favorecidas.

Com os veículos móveis era possível chegar ao Portugal das aldeias e dos pequenos lugarejos de habitações dispersas. Este serviço era em muitos casos o único contacto com os livros que se possibilitava a um elevado número de populações. Não disponibilizava apenas leitura lúdica, mas também leitura informativa e formativa, abarcando o maior número de temáticas possíveis e incluindo manuais escolares.

Biblioteca itinerante da Gulbenkian (retirada do website da FCG)

A este propósito, sabe-se que a escolha do fundo documental obedecia a critérios definidos por uma comissão e era publicado num catálogo atualizado regularmente. No acervo das obras disponíveis iam-se incluindo mesmo, embora lentamente e de forma reservada, algumas obras não muito do agrado dos dirigentes políticos do Estado Novo.

O Jornal de Lousada de 7 de Janeiro de 1961 noticiou a primeira aparição deste veículo na vila, num curto artigo onde se lê: “Esteve no dia 3 nesta vila, pela primeira vez a biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian, a qual passará novamente no dia 31 do corrente”. No segundo e último parágrafo a publicação diz que “Apesar de não ser conhecida a sua passagem, teve mesmo assim a visita de um bom número de pessoas interessadas, pelo que é de esperar uma maior afluência na próxima passagem”.

Bilhetes de amor circulavam nos livros

O docente lousadense e diretor escolar em Nogueira da Maia, António Oliveira recorda que “num Portugal pobre e em pleno Estado Novo, o acesso à leitura era escasso e o que era lido e escutado podia ser controlado” e sublinha que “quem ama os livros, sabe que eles conseguem conter o mundo, levar-nos a viajar sem sairmos do lugar, transportar-nos no tempo para o passado ou para o futuro, fazer-nos conviver com grandes personagens da História, com heróis, aventureiros ou vilões, com gente como nós ou com gente muito diferente, de outras latitudes e culturas, anónimos ou famosos”.

Biblioteca itinerante da Gulbenkian (retirada do website da FCG)

Desde que aprendeu a ler, percebeu que os livros “continham todos estes poderes mágicos e apaixonei-me por eles. Mas não era fácil comprar livros há cerca de 50 anos, quando se vivia fora das grandes cidades, e sobretudo quando se pertencia a uma família de escassos recursos financeiros. Eu, que pertencia a este grupo de gente “remediada” do interior, quando Lousada era um local que distava duas horas de viagem do Porto, sabia que o acesso aos livros era um raro privilégio. As Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian deram resposta ao meu desejo de leitura, e ao de tantos outros jovens ou menos jovens de Lousada”, expõe o docente.

Com alegria, António Oliveira lembra que “os dias do biblio-carro eram dias de festa para os miúdos e adolescentes, que se encantavam a olhar para os livros, para as palavras e para as ilustrações e procuravam até aquele livro que alguém tinha reservado em seu nome, onde havia um bilhetinho escondido, as primeiras cartas de amor trocadas em segredo através de um livro”.

Os poucos livros que conhecia eram os escolares, “cujos conteúdos emanavam a ideologia do regime fascista. Até as capas continham imagens alusivas à mocidade portuguesa”. No interior da carrinha havia dezenas de livros nas prateleiras: “na de baixo, livros infantis, na do meio romances e na de cima outros géneros. «Só podem escolher dois títulos, para haver livros para todos», dizia o bibliotecário. E cada título trazia uma nova aventura, com o Sandokan, os três Mosqueteiros, o Robinsoe Crusoe, os monstros marinhos como o Moby Dick ou aquele bilhetinho com um simples, mas significativo, «Gostas de mim?»”, relata com saudade. “É com gosto que relembro este projeto tão vanguardista, que substituía as funções de um Estado cinzento, que não promovia a literacia, para melhor subjugar um povo mal informado. Reconheço que me ajudou na promoção do gosto pela leitura. O acesso àquelas estantes elevaram o nível cultural de muitos cidadãos tornando-os mais informados e esclarecidos”, conclui António Oliveira, natural do Loreto, Cristelos.

Biblioteca itinerante da Gulbenkian (retirada do website da FCG)

A papelaria da Geninha e pouco mais

Também dessa época era Teresa Neto, que residia na Praça da República, a escassos metros da paragem da biblioteca itinerante. “Que me lembre, nunca faltei a uma vinda da carrinha. Sabia o dia da chegada e ia sempre ver as novidades. Fiquei com muita pena quando deixou de aparecer”, afirma esta lousadense.

Um dos aspetos que mais recorda é “a simpatia dos senhores que vinham na carrinha, tanto o motorista como o que nos ajudava na escolha dos livros e assegurava que só podíamos levar um determinado número de exemplares”. Pelo meio destes relatos de memórias, Teresa Neto repete que “era uma sensação fantástica que sentia quando a Biblioteca chegava”. Dos livros que mais recorda destaca “todos os clássicos de Camilo, Eça, etc. e livros apropriados para a minha idade, pois era muito jovem, mas posso dizer que a carrinha trazia literatura de qualidade, apropriada a todas as faixas etárias”.

Essa leitura criou-lhe “a vontade, que mais tarde concretizei, de ir para a Faculdade de Letras onde pude aprofundar os meus conhecimentos literários”. E conclui o seu testemunho lamentando que “atualmente as Bibliotecas entraram em desuso, resultado dos tempos, que mudaram hábitos, para pior”.

Na década seguinte, já na transição dos anos 70 e 80, Pedro Cesário Vasconcelos era um frequentador assíduo deste serviço educativo. “Era uma ótima opção para termos livros disponíveis numa época em que quase não havia onde comprar um livro em Lousada”, salienta, acrescentando que “havia a papelaria da Geninha, mas poucos livros tinha, por isso só quando se ía ao Porto é que se comprava ou o pai trazia um livro dos Cinco e da Anita para a minha irmã, por isso estávamos sempre à espera semanalmente que a carrinha viesse para termos novos livros para ler”.

Da mesma geração é Alexandra Guerra, que da distante e emblemática Dinamarca expressa que “tenho comigo a ideia dessa carrinha grande onde eu e a minha irmã Paula íamos buscar os primeiros livros que lemos”. Afirma que “é curioso que eu tinha livros em casa, mas entrar dentro da carrinha e escolher um livro tinha algo de mágico”. Um livro que destaca dos muitos que requisitou foi “o livro A Lady e o Vagabundo, que li com oito anos de idade, o que foi uma vitória, pois eu tenho dislexia”, revela.

Também Cândida Novais, docente, recua no tempo para recordar “a ansiedade da vinda da carrinha e a curiosidade de subir às prateleiras de cima, por estarem vedadas aos menores”. Da sua preferência “eram os livros típicos das aventuras dos Sete, dos Cinco, as Viagens de Gulliver” e ainda hoje lamenta que “o Crime do Padre Amaro e os romances de Sherlock Holmes estavam vedados a nós, mais pequenos”. E ressalva por último que tinha “uma preocupação muito grande com o estado dos livros”, que era igualmente um fator muito controlado pelos “senhores da carrinha”.

Bibliomóvel Municipal foi eliminado

O veículo municipal outrora denominado Bibliomóvel ou Biblioteca Itinerante, já não existe. Pelo menos, não existe enquanto tal serviço. O veículo, uma carrinha de transporte de mercadorias que havia sido adaptada para o transporte de livros, foi transformado em transporte de operários para as obras municipais.

Bibliomovel de Lousada em 2008 (retirada da página da Biblioteca Municipal)

Na página da Internet do Município de Lousada, mais concretamente no endereço eletrónico cm-lousada.pt/pages/639 lê-se que a “Biblioteca Itinerante ou Bibliomóvel da BML (Biblioteca Municipal de Lousada) é um serviço que possibilita o empréstimo domiciliário externo de livros a pessoal docente, não docente e alunos de Estabelecimentos Escolares, de diferentes níveis de educação e ensino do Concelho de Lousada, durante o ano letivo”. É informação desatualizada, pois na realidade, isso não existe. Em boa verdade, o bibliomóvel já existiu e não foi substituído.
Questionada sobre este assunto, a diretora da Biblioteca Municipal, Adelaide Pacheco, respondeu que “o bibliomóvel, servia, exclusivamente as escolas, não servia a população em geral” e “com a construção dos novos centros escolares e requalificação das escolas básicas do 1º ciclo de todo o concelho, os quais “ficaram com espaço de biblioteca, devidamente equipado e com um fundo documental moderno e adequado à faixa etária dos alunos”. Por tudo isso, Adelaide Pacheco considera que “o serviço de bibliomóvel deixou de fazer sentido”, além de que, “já era um veículo antigo que tinha de ser totalmente remodelado ou teria de se adquirir um novo”.

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