Volvidos 50 anos após a revolução de 25 de abril, continua bem viva na minha memória a marca desses tempos. Ainda não tinha 6 anos, mas vivia junto à antiga delegação da PIDE, hoje, museu Militar do Porto e Belas Artes. As escaramuças que aí se desenvolveram, antes, durante e depois do 25 de abril, revivo-as ocasionalmente, só em conversa com amigos ou conhecidos: por duas vezes foi a minha casa “assaltada” por manifestantes que fugiam às autoridades. O pavor nas suas caras, contrastava com a irreverência que tanto queriam demonstrar, mas que se esvaia perante a opressão.
Recordo, também, as vindas a Lousada, onde ficava alguns dias com os meus avós, de tempos a tempos: como eram enormes as diferenças entre Lousada e o Porto. O atraso era evidente a todos os níveis: o grau de alfabetização e de infraestruturação era muitíssimo fraco em Lousada, como era um pouco por todo o interior português. A ruralidade era aqui e ali matizada com outra pequena indústria, normalmente de índole artesanal. Cumpria-se o Portugal dos 3 fs de Salazar.
Hoje, já nada é assim, talvez continuem a existir diferenças, mas quanto a qualidade de vida, a vantagem, dirão muitos, está do lado de Lousada. O caminho até à igualdade, à democracia, tem sido percorrido e, no nosso tempo, embora seja necessário ainda ultrapassar algumas circunstâncias que vêm do tempo do Estado Novo, marcadas, mais pela censura, do que, propriamente, pela repressão, podemos dizer, que estamos na direção certa.
A atestar essa direção, está – quero sublinhar – o exemplo cívico dado por um grupo de professores e de alunos do agrupamento de escolas Mário Fonseca, com a edição de um livro – Resistência e Liberdade -, sobre alguns acontecimentos e pessoas que lutaram pela liberdade e democracia neste concelho. O livro foi apoiado pela associação Luminare Valle a que presido, uma associação que promove a cidadania e pratica a filantropia do conhecimento.
Trata-se de uma ação de reverência por todos esses lousadenses de outrora, que é ela mesma eivada de irreverência, na medida em que dá cor a essa pintura que rejeita, justamente, tudo o que foi herdado desse outro tempo: a falta de liberdade política, a desigualdade – a falta de democracia. Essa cor, que na contemporaneidade, de forma paradoxal – porque, em geral, vivemos melhor -, vemos a espaços querer esvanecer, sobretudo quando sentimos os nossos jovens a terem de procurar outras paragens, fica mais viva com este tipo de trabalho que conduz ao enraizamento. Ter a noção clara do que não se quer, contribui para saber o que se quer: é algo que precisa de se afirmar e reafirmar, não só pelos jovens, mas por todos nós. É, realmente, uma grande lição, esta dada por estes professores e por estes alunos, que é a de que as comunidades não se constroem à custa de estereótipos globalizantes, mas sim, através desta tensão cultural, desta participação cívica, onde a memória é recuperada a partir de um trabalho de investigação de reflexão, no fim, de exploração das capacidades humanas para a construção da vida em sociedade. É a reverência a partir da irreverência em direção à liberdade, igualdade e fraternidade, que estimula o enraizamento e consolida a comunidade: algo tão importante quando o nosso concelho recebe cada vez mais pessoas de fora.
Na mesma linha, o Louzadense, que mais uma vez comemora o seu aniversário, continua com a sua contribuição nesse mesmo desiderato. Teimando em trazer para a ribalta os Lousadenses, que de uma forma ou de outra, marcam este belo concelho, presta um serviço cívico fundamental no reconhecimento dessa identidade, que num mundo, onde se aspira tender para a igualação, só pode ser sublinhado e aplaudido de pé.
Muitas são as razões para celebrar o 25 de abril, deixei aqui mais duas, as quais se destinam a relevar a efervescência cívica que, ao contrário do que se diz ou do que se pretende, está bem viva, qual chama que deve ser sempre alimentada… Assim o queiramos. E isso é cumprir Abril: Viva o 25 de abril!
Eduardo Silva
Eng.º Civil













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