por | 29 Abr, 2024 | Dar voz aos livros, Opinião

A Liberdade e a oratória de Padre António Vieira

No momento atual, em que se agudiza a guerra no Médio Oriente e o mundo apresenta sinais de uma doença incurável num emaranhado de ação, retaliação, devoração do outro, o diálogo tornou-se uma utopia e a catadupa de destruição, alastrando-se da faixa de Gaza à Síria, faz amputar a voz da Ucrânia, refém do imperialismo Russo. É neste horizonte desencantado que lembramos a voz de António Vieira e a necessidade de a recuperarmos para ler um certo mundo enfurecido em que vivemos.

O século em que viveu o Padre António Vieira corresponde a um tempo particularmente agitado por diversos conflitos, um tempo e uma sociedade minados por um forte individualismo e por um jogo de interesses feroz que acentuava a linha negra de um horizonte asfixiado pela desavença dos Homens, sobretudo por aqueles que detinham o poder. É, por isso mesmo, também, um século a precisar de uma voz capaz de se fazer ouvir, uma era a pedir palavras argutas e persuasivas que, de algum modo, consertassem os males que a definiam e a iam fazendo definhar moralmente.

É neste contexto que compreendemos a mensagem de António Vieira que, com a sua extraordinária lucidez, interpreta a realidade do seu tempo e faz, da sua palavra, espada em prol de um mundo mais justo. O espírito imaginativo, aliado à coragem e à tenacidade de António Vieira, criou, no espaço da sua palavra, um lugar para lutar. As suas palavras são, efetivamente, a sua voz: o modo alegorizante, associado a uma parenética coeva, elevou os seus textos ao estatuto de uma denúncia, num tempo dominado por demónios mudos.

A minha liberdade está condicionada pela hipocrisia? A mudez ou silenciamento é perdoável?

Quanto à primeira questão, julgamos que a resposta emerge, gradativamente, ao longo do «Sermão da Confissão dos Ministros». O Homem corta as suas próprias asas, quando se esconde atrás de um espelho que lhe retira a visibilidade de si e a capacidade de se autocriticar de forma inequívoca. A hipocrisia amarra o Homem, tornando-o prisioneiro da sua mentira. A segunda questão encontra a resposta nas palavras de Vieira neste sermão: o silenciamento não é perdoável, não há abertura para a impunidade. A escrita de Vieira realiza, portanto, denúncia pela palavra.

No mundo contemporâneo, sufocado pelos interesses e os jogos de poder, a guerra tornou-se o monstro devorador, que nos tornou incapazes de diálogo. O silenciamento do homem perante a destruição, traz de volta António Vieira e a necessidade de tornar a palavra cento de ação. E a liberdade maior que o medo.                                                                                                                                                                  

Conceição Brandão

Professora

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Lousada ultrapassou os 50 mil habitantes, devido ao aumento da população estrangeira

Análise do jornal O Louzadense aos mais recentes dados provisórios e preliminares do Instituto...

Equipa de Shinkyokushin conquistou seis pódios

O WIBK Dojo Verdadeiro Espírito, do lousadense Paulo Rente Silva marcou presença no Torneio...

Atleta de Lousada convocada para Jogos do Eixo Atlântico

A jovem Daniela Pereira, natural da freguesia de Pias, em Lousada, foi convocada para integrar a...

"Talvez seja por isso que gosto tanto das nascentes. Porque, ao contrário dos rios, que toda a...

Campeões Nacionais de Natação Adaptada

Os atletas lousadenses do clube Lousada Século XXI estiveram em grande evidência no Campeonato...

A bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, Paula Franco, foi uma das convidadas do...

Forte internacionalização do Inferno das Febras

O Inferno das Febras regressa ao Parque de Lazer e Merendas de Casais, em Lousada, nos dias 28 e...

O treinador penafidelense João Paulo Guedes Silvestre, de 36 anos, é referido por várias fontes...

Protocolo para projeto de turismo cultural assinado entre a CCDR-N e Vidas em Cena

A Associação Vidas em Cena, de Lousada, está entre as dez entidades culturais da Região Norte...

A celebração dos 100 anos dos Bombeiros Voluntários de Lousada constitui um momento de...

Siga-nos nas redes sociais