por | 18 Mai, 2024 | Sociedade, Uncategorized

Não se tratou apenas de guerra – a nostalgia dos combatentes em África

LOUSADENSES NO ULTRAMAR (PARTE 2)

Nem tudo foi mau, dizem os que tentam perspetivar algo de positivo na guerra colonial que custou a vida a algumas dezenas de jovens lousadenses e a cerca de dez mil portugueses. Para lá dos traumas e pesadelos que afloramos na edição anterior do nosso jornal, os combatentes trouxeram também boas memórias.  A camaradagem e amizade, que se prolongaram pela vida adiante e se reflete nos convívios anuais que organizam, são aspetos muito valorizados pelos próprios. Há também quem volte a África, para revisitar o passado e as paisagens do continente africano onde viveram momentos e fases inolvidáveis de uma estadia que em média foi de dois anos. São principalmente os militares que tiveram funções na retaguarda (e não na frente de combate) os que mais evidenciam esse lado nostálgico e saudoso do ultramar.

Até futebol jogavam, e não apenas em clareiras no meio do mato. Os soldados construíam autênticos campos em terra batida, com delimitações, balizas e tudo o mais. Era uma das melhores formas de conviver e reforçar os laços de camaradagem. “Um camarada graduado, do Vale do Ave, que tinha ligações às confeções Coelima, arranjou equipamentos para as equipas. Que alegria aquilo foi”, regozija António Augusto Marques.

AA Marques e o álbum de fotografias do ultramar

Este lousadense foi um dos que trouxe “mais recordações boas que más” e sublinha que “aquilo não foi só guerra”, também produziu alegrias, amizades e lições para a vida.

Igualmente, Joaquim Cardoso, o conhecido fadista da Senhora Aparecida, sublinha que viveu bons momentos em África. “Estive na guerra em Angola, onde fui rádio-telegrafista, que era uma função chave na segurança e comunicação. Foi uma experiência que recordo sempre pelo lado positivo. Ganhei bons amigos para a vida e fiquei encantado com África”, declara o nosso entrevistado, que se revela como “pessoa muito curiosa, com gosto de conhecer culturas, de apreciar outras tradições e adquirir novos conhecimentos”.

Vinte e sete meses depois, regressou a Portugal, tendo sido recebido em festa na sua terra natal.

O soldado Luís Silva escrevendo as suas memória em pleno mato africano

De lá trouxe memórias e saudades “sobretudo das paisagens, dos cheiros característicos e dos sons típicos, assim como as culturas, que me encantam de tal forma que muitas vezes desejei lá voltar”. Aquele encanto que refere motivou-o para a pintura, atividade que ainda hoje pratica com bastante acuidade e impacto. O primeiro quadro que pintou, vários anos depois de ter vindo de Angola, foi de uma paisagem africana que trouxe na memória.

São muitas as formas de reviver as vivências daqueles tempos. Uma das frequentes são as confraternizações, que ocorrem periodicamente e sempre em ambiente de grande animação. “Muitos antigos camaradas de armas ficaram amigos para a vida e convivemos várias vezes ao ano”, salienta o conhecido aparecidense.

Felicitações através dos jornais

O futebol fazia as delícias de muitos batalhões, como o de António Augusto Marques, cujos soldados eram todos madeirenses e os graduados eram do continente. Estiveram implantados em Angola, perto da foz do rio Zaire. “Parti no domingo da Festa Grande de Lousada de 1973, com 22 anos, como furriel-enfermeiro e gerente da cantina, sem saber nada, sem informação alguma, ninguém nos revelava nada sobre a guerra”, recorda este lousadense de Cristelos.

“Em dois anos tivemos uma morte, por afogamento, e eu praticamente não vivi a guerra, pois estava na retaguarda onde tratava dos feridos e geria a cantina” e conta que a preparação antes da partida para o ultramar foi escassa, mas ainda assim adquiriu algumas noções de medicina. Na fase de especialização esteve seis meses no Hospital da Estrela e fez estágio no Hospital Militar do Porto.

“Um dos momentos  mais marcantes que tive? Foram vários, quase todos agradáveis. Um deles foi o encontro, por acaso de dois amigos conterrâneos daqui de Lousada, o Manel, que era irmão do Abílio do Pomar, e o Tónio Severa, que encontrei por acaso numa ida a Luanda, onde o encontrei já em recuperação depois dele ter sido gravemente ferido em combate”, relata o antigo militar.

O que mais gosta de destacar “são os jogos de futebol e a correspondência que chegava de avião”. Eram momentos de diversão e contentamento, que tornavam “os dias mais alegres naquele local”. O Estado português incentivava os militares a escrever e enviar notícias para jornais locais através dos “correspondentes de guerra”. O Jornal de Lousada  publicava frequentemente anúncios de aniversários e votos de boas festas de militares colocados naquelas ex-colónias.

Na edição de 24 de dezembro de 1973 (ver recorte), foi publicado um anúncio de boas festas de António Augusto, com a sua fotografia militar. No mesmo jornal, também o seu primo, Luís Marques Teixeira, igualmente de Cristelos, teve honras de destaque com uma publicação, que aqui partilhamos.

A notícia da revolução de 25 de abril de 1974 chegou através da rádio clandestina portuguesa que emitia a partir de Argel e que era conhecida em Angola por «Maria Turra». “Ainda tenho o rádio através do qual ouvi a boa nova”, recorda António Augusto, que era um ouvinte assíduo das emissões daquela rádio da oposição portuguesa ao antigo regime. “Eu gostava especialmente de ouvir as crónicas e os poemas do Manuel Alegre, lidos pelo próprio”, diz o antigo combatente, que rejubila ao recordar que aquando da queda da ditadura portuguesa sua mãe terá dito “ai que bom, agora o meu filho já pode voltar da guerra”. Um alento que certamente todas as mães com filhos no ultramar proclamaram na ocasião.

Voltou para casar e foram para Angola

O saudoso Jaime Nunes de Moura abominava a guerra. Mas teve que ir para a tropa, como qualquer jovem e, em finais da década de 1960, o espectro da ida para a guerra colonial era real. Começou por prestar serviço no Quartel de Penafiel e posteriormente nas Caldas da Rainha.

Dali foi destacado para a província ultramarina de Angola para onde rumou a bordo do paquete Vera Cruz, tendo arribado a Luanda no dia 4 de Agosto de 1970, com a patente de Furriel Miliciano de Serviço de Material, no Batalhão de Caçadores n.º 2919 da Companhia de Comando e Serviços. Mais tarde viria a ser promovido a sargento.

Era o responsável pelo armazém de armas e estava na retaguarda mais recuada da cena militar.

Como muitos militares, deixou uma vida em suspenso na sua terra. O namoro de Jaime com Maria Isolete Lemos Carvalho, de Felgueiras, iniciado três anos antes, continuou através de correspondência trocada regularmente. A distância não lhes fazia sentido.

Os militares graduados que desempenhavam serviços técnicos e administrativos podiam levar a esposa e filhos, desde que construíssem a sua própria habitação. Aproveitando essa premissa da lei militar, Jaime e Isolete casaram no dia 12 Abril de 1971.

“Nós não queríamos viver tanto tempo afastados um do outro, explica Isolete, por isso ele regressou para casarmos”, refere Isolete Carvalho no livro «Jaime Moura – Um líder todo-o-terreno» (Carvalheiras, 2014).

No dia 30 de Abril foram para aquele país de África, onde se instalaram, em Cabinda. “Ele era corajoso e aventureiro” revela Isolete, enaltecendo também a sua paixão por Angola.

Jaime Nunes de Moura escrevendo uma carta

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