por | 16 Set, 2024 | Educação, Uncategorized

Doutoramento promove a meritocracia contra o favorecimento e a “cunha”

AINDA ASSIM OS JOVENS DOUTORADOS PONDERAM (MUITO) EMIGRAR

É certo que os doutoramentos académicos e outros níveis de habilitações acima da licenciatura são difíceis de alcançar por quem não tem “capital económico”. Ainda assim, há mais jovens lousadenses a aderir à conquista de mais e melhores habilitações, nomeadamente o doutoramento. Entrevistamos alguns e todos concordam que, de um modo geral, já pensaram em emigrar. Os doutorados vivem e trabalham melhor no estrangeiro. Reconhecem que “mais habilitações proporcionam mais meritocracia” e menos “cunhas”. O sentimento predominante é “a realização pessoal”, mas também valorizam muito o seu “contributo para um futuro melhor”.

Emigrar é uma (forte) opção para doutores_Créditos Bom Dia Luxemburgo

O arquiteto lousadense Manuel Jorge de Carvalho é da opinião de que “um curso de doutoramento disponibiliza e potencia uma série de ferramentas a um doutorando, no que diz respeito a modos de pensamento e esferas de conhecimento, espaços comuns de partilha com outros investigadores, uma condição específica de comunidade académica, para além da condição individual”. Além disso, “permite avanços e ganhos de conhecimento científicos e sociais que capacitam e melhoram a condição comum da sociedade”. Nesse sentido, considera que o doutoramento “empodera não só quem investiga, estuda e problematiza, mas também empodera a comunidade académica em que se insere e, em última instância, empodera a sociedade próxima e alargada, abrindo novas hipóteses de ideias, caminhos e soluções para os constantes confrontos do ser humano com o mundo que o envolve”.

Manuel Jorge Carvalho, doutorado em Arquitetura

Mais habilitações favorecem a meritocracia? “Sem dúvida que sim, mas o problema permanece, contudo, a montante da questão, nomeadamente sobre a existência ou não de uma verdadeira meritocracia no espaço social português”, admite o arquiteto.

Os custos de um doutoramento criam clivagem social, pois só quem tem capacidade financeira tem acesso a esse desejo ou aspiração. Este doutor em arquitetura concorda que “o custo financeiro sobrelevado de um curso de doutoramento é um entrave a um acesso pleno e democrático à produção e partilha de conhecimento especializado sobre uma área de conhecimento. Claro que partimos da ideia que a formação e a educação são pilares fundamentais para uma sociedade justa, tendencialmente com equidade em oportunidades”. Se o acesso a um terceiro ciclo de estudos superior “for «vedado» pelo peso da propina e demais custos associados a um tecido cada vez mais alargado de pessoas, estaremos certamente perante um caso de disparidade social”, acrescenta.

No seu percurso de vida social e académica encontrou casos de colegas e ou outros estudantes que, por vários motivos, queriam mas não prosseguiram os estudos. “Um doutoramento é um caminho de difícil atravessamento, exige imenso tempo, dedicação e esforço. A investigação em Portugal está capturada por um ciclo vicioso de crescente precariedade, sub-financiamento e, sobretudo, uma crescente crença na tradução direta da academia para o mundo laboral, o que, no meu entendimento, deturpa por completo o propósito do estudo, da investigação e da academia”, explana o entrevistado.

O seu Doutoramento em Arquitectura foi um objetivo delineado “por três motivos: primeiro, visto que ser arquitecto é quase uma condição sine qua non da minha presença no mundo, não me imaginando a contribuir para o mesmo de outro modo; segundo, porque face ao meu percurso até agora, considero haver alguma pertinência naquilo que investigo atualmente, na qualidade de pequena contribuição para um corpo de saber alargado que definimos enquanto Arquitectura; terceiro, por fim, por ser um grau académico que me permitirá aceder à academia universitária na qualidade de professor, por reconhecer e sentir alguma responsabilidade em transmitir a profunda paixão que nutro pela arquitectura a outros que venham depois de mim”.

O estrangeiro costuma ser atrativo para muitos jovens que se especializam com um doutoramento. “No que a mim me diz respeito, não negarei ter já colocado essa hipótese, à semelhança de um número infindável de colegas que emigraram sem perspetivas de voltar, ainda antes até de ingressar num curso de doutoramento. O motivo, mais do que académico, cingia-se estritamente à oportunidade económica da área profissional em que me movo: as oportunidades de trabalho em Portugal são escassas, com encomenda frágil e pouco qualificada”, confessa Manuel Jorge de Carvalho. Ainda assim, mantém-se por cá, dado que adquiriu “entrosamento cultural, disciplinar, metodológico e vocacional que tenho com a arquitectura portuguesa, e de modo mais particular no Porto, ainda me vai permitindo ter vontade de conseguir (sobre)viver em Portugal enquanto arquitecto”.

Especialista no estudo do cancro

A especialista em Ciências Biomédicas, Andrea Cunha, também partilha da ideia de que “o doutoramento é, sem dúvida, uma forma de empoderamento, pois oferece ferramentas essenciais para o aprofundamento do conhecimento científico, o desenvolvimento do pensamento crítico, a autonomia e a capacidade de resolver problemas complexos, como na minha área, ligada à saúde”.

Andrea Cunha, doutorada em Biomédicas

Além de proporcionar uma voz mais ativa na comunidade científica, o doutoramento “contribui diretamente para o avanço da sociedade, seja na inovação de diagnósticos, no desenvolvimento de terapias ou na prevenção de doenças”. Ao ter apostado num doutoramento em Biomédicas, considera que adquiriu “competências altamente especializadas que abriram portas para novas oportunidades, tanto na investigação biomédica quanto na carreira académica”. Embora historicamente direcionado para o meio académico, “o doutoramento em Ciências Biomédicas está cada vez mais aplicável no setor profissional, com várias empresas de biotecnologia e saúde a reconhecerem e incentivarem essa qualificação”, acrescenta Andrea Cunha.

A jovem chama atenção para a necessidade “ter uma visão realista do tempo, do custo e do esforço que um doutoramento exige. É uma maratona, cheia de obstáculos, de investigação rigorosa, longa e, muito, desafiadora”.

A valorização do mérito e do estatuto é algo que o doutoramento confere: “acredito que  pode contribuir para fortalecer a meritocracia em Portugal, e sou um exemplo disso. A minha trajetória profissional tem sido recompensada com base no meu mérito, fruto da minha dedicação, do meu esforço e dos meus resultados. Tive a sorte de trabalhar num contexto em que a meritocracia é valorizada e promovida, onde o mérito individual é reconhecido e recompensado”. No entanto, a jovem lousadense não deixa de reconhecer que “nem sempre é assim, nem todos têm acesso às mesmas oportunidades, e a verdadeira meritocracia só é possível quando existe igualdade de condições de partida”.  Isso remete para a tal questão dos custos dos doutoramentos.  Acerca disso, refere que “cria barreiras para pessoas de origens menos favorecidas. Em Portugal, o financiamento para doutoramentos é um desafio. As bolsas da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) são importantes, mas muitas vezes não cobrem todos os custos de um doutoramento”.

Recentemente, Andrea Cunha esteve a dar formação em Angola, onde percebeu que, “apesar das dificuldades internas, temos de reconhecer que a clivagem social lá é ainda mais acentuada. De facto, lá ainda é uma realidade bem mais preocupante; pelo facto de ter nascido num lugar desfavorecido, um aluno brilhante não tem  as mesmas oportunidades que nós. Isso reforça a importância de lutarmos por um sistema educacional mais justo e acessível para todos, independentemente da sua origem”. 

Atualmente é docente no IUCS/CESPU na disciplina de Bioquímica. Desenvolveu um profundo conhecimento sobre metabolismo celular, o que lhe permitiu direcionar a sua  investigação para áreas aplicadas, como a Oncobiologia. Explica que “o metabolismo desregulado das células tumorais é um dos hallmarks do cancro e, embora só recentemente tenha recebido maior atenção, ele desempenha um papel crucial nas características agressivas do tumor. Esta área sempre me fascinou pela complexidade, mas também me desperta uma certa apreensão, pois o cancro ainda é uma doença com altas taxas de mortalidade”. E conclui que “o impacto da investigação pode transformar não apenas o entendimento, mas também o tratamento do cancro, trazendo novas esperanças para milhões de pacientes”.

Um crânio das sequências estatísticas

O estatístico e matemático Rui Pinto Borges é professor na Universidade de St Andrews, uma das mais antigas do Reino Unido. Para a questão que colocamos sobre a força e empoderamento do doutoramento este lousadense especialista em Estatística diz que isso permitiu-lhe “desenvolver o pensamento crítico, adquirir conhecimento e contribuir para o avanço da minha área científica. Além disso, possibilitou-me ganhar o respeito dos meus pares, tanto na comunidade científica como no contexto da transmissão de conhecimentos a jovens adultos na universidade”.

Rui Pinto Borges, doutorado em Estatística

Para Rui Borges “o doutoramento, em princípio, deveria ser uma ferramenta de reconhecimento de mérito, pois representa um longo período de esforço, responsabilidade e dedicação para quem o realiza. No entanto, fatores financeiros ou sociais ainda condicionam muito o acesso ao ensino superior, especialmente ao doutoramento. Assim, embora o doutoramento seja uma expressão de mérito pessoal, só poderá ser considerado uma ferramenta de justiça social quando forem asseguradas formas de acesso justas e inclusivas”.

Reconhece que “os elevados custos das formações de especialização e doutoramento acentuam desigualdades sociais, uma vez que pessoas com menos recursos financeiros podem não ter acesso a estas formações avançadas, o que limita a sua progressão académica e profissional. Em Portugal, as propinas de doutoramento rondam os 3.000€ anuais (um valor elevado em relação ao salário mínimo), mas existe uma boa oferta de bolsas de doutoramento, das quais eu beneficiei, e sem as quais dificilmente teria tido a oportunidade de seguir esse caminho”. No entanto, “ainda há muito a melhorar” e dá o exemplo da Áustria, onde as propinas anuais de doutoramento são de cerca de 200€.      Reportando-se à especialização que seguiu, Rui afirma que sempre teve interesse na área da biologia evolutiva, que estuda os mecanismos que levam ao surgimento das diferentes espécies. Embora tenha seguido um percurso académico em biologia, “gostei sempre de matemática e estatística. Nos últimos anos do doutoramento, decidi aprofundar a interseção dessas áreas e, atualmente, trabalho no desenvolvimento de modelos teóricos e computacionais que procuram inferir os processos evolutivos passados que tornam os genomas — as longas sequências de A, C, G e T que codificam características como a cor dos olhos ou a nossa altura — de cada espécie tão únicos”.

Este doutorado é um exemplo da grande mobilidade para o estrangeiro que acontece com doutorados portugueses. “Em Portugal, quem quer trabalhar em ciência enfrenta salários baixos, pouca estabilidade na carreira, e um financiamento escasso e imprevisível. Esses fatores também influenciaram a minha decisão de sair”, conclui Rui Pinto Borges.

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