por | 10 Dez, 2024 | Opinião, Voz da Geração Z

Um atentado à infância: redução da idade de consentimento

O parlamento iraquiano começou a discutir a proposta de lei que pode reduzir a idade de consentimento para o casamento para apenas nove anos de idade. Esta possibilidade levantou debates intensos, tanto dentro como fora do país, e gerou uma onda de indignação. Os líderes políticos que aprovam esta medida utilizam a justificativa da interpretação estrita da sharia, o que torna a proposta ainda mais perigosa, pois, numa sociedade onde a religião desempenha um papel central, a argumentação confere à medida uma falsa legitimidade e dificulta a sua contestação por parte da população.

Esta medida, independentemente do contexto em que surge, representa um retrocesso nos direitos das crianças e uma afronta em termos de desenvolvimento civilizacional. Reduzir a idade de consentimento significa desconsiderar o verdadeiro propósito do consentimento. Para que haja consentimento, é necessária maturidade emocional, psicológica e física – algo que é reconhecido como inexistente em crianças.

Consentimento não é apenas uma palavra jurídica, é um princípio que protege indivíduos de exploração, manipulação e abuso. No caso das crianças, esta proteção deve ser inegociável.

No entanto, é importante perceber que existem muitos contextos onde se discutem mudanças como esta. Onde há pressões culturais ou religiosas que tentam justificar o casamento ou relações precoces. No entanto, estas não se podem sobrepor à ciência e aos impactos que o casamento infantil sempre teve na infância das suas vítimas. Pesquisas globais mostram que qualquer forma de relacionamento íntimo traz consequências devastadoras: interrupção da educação, sérios riscos à saúde mental e física, e uma perpetuação de ciclos de pobreza, abuso e desigualdade. Meninas que se casam ou engravidam precocemente enfrentam sérios perigos à saúde, incluindo complicações durante a gravidez e o parto, que são uma das principais causas de mortalidade entre adolescentes em muitos países. Os seus corpos não estão preparados para esta experiência, o que pode levar a danos permanentes ou até mesmo fatais.

Além disso, a redução da idade de consentimento não afeta apenas as vítimas diretas. Isto tudo normaliza práticas de exploração e envia uma mensagem preocupante para a sociedade: a de que as crianças podem ser tratadas como adultos, retirando delas o direito à infância. É uma desconstrução de décadas de avanços, promovidos por tratados internacionais como a Convenção sobre os Direitos da Criança. Estas crianças, que poderiam ser estudantes, cientistas, líderes ou profissionais em qualquer área, são agora reduzidas a papéis que as limitam e comprometem o seu potencial. E, claro, isto não afeta só as meninas individualmente – afeta toda a nação, que perde a chance de uma geração mais educada e mais capacitada. Em vez de preparar as futuras gerações para liderar e inovar, querem prepará-las para um ciclo de subordinação e dependência.

Os defensores desta medida podem argumentar que reflete nas tradições locais ou que as crianças “estão preparadas” para assumir responsabilidades. Contudo, tais posições ignoram o fato de que a infância é um período universal de desenvolvimento, necessário para o amadurecimento. Submeter crianças a responsabilidades adultas não é apenas injusto, como também um tipo de violência institucionalizada.

A redução da idade de consentimento é, na essência, uma tentativa de formalizar e legalizar abusos, escondendo-os sob a máscara das convenções culturais ou normas sociais. Não se trata de um debate cultural, mas sim de uma questão ética global.

Mariana Campochão Carvalheiras
Estudante na FLUP

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Para mim, falar da castanha é falar de memórias do meu passado longínquo, mas também do meu...

O compasso do tempo dança-se em Lousada: quando uma música vale por mil gestos

A iniciativa reuniu cerca de 80 participantes com 55 ou mais anos, numa jornada dedicada à...

ZERO dá parecer favorável ao aterro de resíduos não perigosos de Lousada

A ZERO emitiu um parecer favorável sobre o projeto da nova célula do aterro de resíduos não...

INICIATIVA LIBERAL LOUSADA: ATERROS DE LUSTOSA: APOIAMOS A OPOSIÇÃO AO PROLONGAMENTO. EXIGIMOS FISCALIZAÇÃO E TRANSPARÊNCIA.

Lustosa convive há décadas com a deposição de resíduos. Existem ali duas instalações distintas: o...

Igrejas de Abragão e Meinedo alvos de obras de conservação e restauro

A Igreja de São Pedro de Abragão, em Penafiel, e a Igreja de Santa Maria de Meinedo, em Lousada,...

Meinedo – do passado que nos honra ao futuro que podemos construir

Há terras que vivem de memória. E há terras que sabem transformar a memória em futuro. Meinedo...

𝐂𝐨𝐧𝐯𝐨𝐜𝐚𝐭ó𝐫𝐢𝐚 𝐀𝐬𝐬𝐞𝐦𝐛𝐥𝐞𝐢𝐚 𝐆𝐞𝐫𝐚𝐥 𝐀𝐬𝐬𝐞𝐦𝐛𝐥𝐞𝐢𝐚 𝐑𝐞𝐜𝐫𝐞𝐚𝐭𝐢𝐯𝐚 𝐞 𝐃𝐞𝐬𝐩𝐨𝐫𝐭𝐢𝐯𝐚 𝐋𝐨𝐮𝐬𝐚𝐝𝐞𝐧𝐬𝐞 Nos termos dos...

Há frases que nos atravessam sem pedir licença. Não sabemos bem porquê, mas ficam connosco,...

Dia Mundial dos Cuidados Paliativos - 10 de outubro Aos olhos de uma criança, viver pode ser tão...

Quando começa o outono, imaginamos desde logo as folhas das árvores a mudar de cor. Os caminhos...

Siga-nos nas redes sociais