por | 18 Out, 2021 | Opinião

Todos têm direito de reclamar. Mas com quem?

Opinião de Sandra Dias dos Santos – Médica na USF Torrão

Os tempos que temos vivido vieram alterar por completo as nossas vidas. Quando me refiro a “nossas” refiro-me às vidas de todos. Escrevo este artigo enquanto médica do Sistema Nacional de Saúde (SNS). De facto, os cuidados de saúde primários sofreram grandes mudanças desde o início da pandemia.

O tal vírus chamado COVID-19, tão pequeno que nem sê vê, impôs mudanças importantes em todo o mundo. Estamos agora na fase de retoma de atividade. Mas será possível esta retoma, tal como a idealizam? Num mundo ideal, mesmo em plena pandemia, os utentes continuariam a ter a mesma acessibilidade aos cuidados de saúde. Mas nesse mundo, os tais que outrora designaram de Heróis, teriam que se desdobrar em 4 para assegurar o trabalho todo.

As pessoas que trabalham no SNS são precisamente isso… PESSOAS. Na realidade não são super-heróis. São pessoas que têm família, que precisam de descansar, que precisam de desligar do trabalho. Portanto são pessoas como todas as outras.

Todos os dias vejo doentes cuja última consulta foi há 1 ano, 2 anos… Quase todos eles reclamam, em jeito de desabafo. O que estes utentes não conseguem perceber, é a imensidão de novas tarefas que nos atribuíram, sem perguntarem se teríamos capacidade de as realizar.

Para além da nossa atividade habitual enquanto médicos de família, surgiu o Trace Covid, as Áreas Dedicadas a Doentes Respiratórios (ADR), os Centros de Vacinação (CVC)… E parte dos profissionais que asseguram estas tarefas são dos Centros de Saúde.

Façam um exercício comigo: se um médico for escalado, na mesma semana, para o ADR e CVC, são dois dias que estará ausente do Centro de Saúde. São dois dias em que não poderá fazer consulta. E reflitam: acham que o trabalho de 5 dias se faz em 3? Não, não se faz. Nem nos cuidados de saúde, nem noutro trabalho qualquer.

O Trace Covid é a plataforma de vigilância dos doentes infetados ou suspeitos. É verdade que o Trace Covid não “nos rouba” tempo de trabalho, rouba-nos tempo livre. Somos obrigados a dispensar tempo de convívio familiar, para ligar aos utentes. Mas na realidade não é a tarefa de ligar aos utentes que me chateia, mas sim ligar um domingo de manhã e do outro lado o utente dizer que está farto que lhe liguem em número privado.

Pois é, também estamos fartos de ter que estar alerta todos os dias da semana, mas não é por isso que descarregamos a nossa irritação nos utentes. Todos os dias na consulta, os utentes reclamam da demora de marcação da mesma, do facto da acessibilidade ser menor, da consulta estar atrasada… Não percebem que estivemos sempre a trabalhar, não percebem que cada um deles gasta mais tempo de consulta que o suposto (daí o atraso).

Torna-se cansativo e até desanimador ouvir reclamações todos os dias, quando estivemos sempre a “DAR O LITRO”. Direito a reclamar? Sim, têm. Mas reflitam sobre com quem o devem fazer.

1 Comment

  1. Idalina silva

    Concordo. Eu fui nomeada responsável
    de outro serviço, mas mantenho-me responsável daquele que já era. Tenho de de dividir a semana em 2 sítios. E tal como diz o artigo: acham que se faz em 3 dias o que se fazia em dois? Daí o stress, a incapacidade de fazer bem, de fazer tudo. E temos de ter paciência ( eu nem me refiro com os utentes, porque esses estou cá para os servir ) é a paciência com aqueles que “trabalham” conosco, e que regateam tudo …

    Reply

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