por | 14 Out, 2023 | Economia, Sociedade

Gigantes engolem pequenos produtores

Balanço da época das vindimas

Mais uma época de vindimas chega ao fim. Muitas queixas e danos são reportados. Cada vez mais dominada pelos grandes produtores regionais e nacionais, a apanha e transformação da uva vai perdendo o cariz social e etnográfico, que tanto a identificava até ao passado recente. O setor está industrializado e mecanizado. Quem não se moderniza perde o comboio num mercado cada vez mais exigente e competitivo.

A Adega Cooperativa de Lousada é uma das entidades com desafios importantes para vencer. Aqui perto, em Felgueiras, a adega parece estar também ela a passar por dificuldades. Há relatos de adegas portuguesas a fechar.

Os viticultores são unânimes quanto ao mau ano de produção que afetou as colheitas. Para o produtor Manuel Carlos Malheiro, “este ano, na minha opinião, houve grandes problemas nas produções devido a ataques de míldio severos, principalmente na casta Arinto ou Pedernã, o que obrigou também os viticultores/lavradores a mais pulverizações para tentar controlar as doenças”.

Este profissional do setor vitivinícola sublinha que “os grandes problemas do sector são a falta de mão de obra, custos de produção cada vez mais elevados, maquinaria cara e de manutenção cara, gasóleo agrícola cada vez mais caro, apoios aos lavradores por parte do estado muito poucos”. Perante isto mais se percebe que só os grandes sobrevivem e os pequenos passam mal.

Parece ser o caso da Adega Cooperativa de Lousada. O cooperante desta entidade, Luís de Sousa, disse a O Louzadense que “o preço pago por kg de uva é o mesmo que há 10 anos atrás. Os operadores regem-se por uma tabela de preços a pagar de um dos grandes operadores da região, o custo de produção na região por hectare andará na volta dos 3.500 euros por hectare e o preço pago por quilograma (kg) ronda os 0,40 cêntimos. Ora, isso é manifestamente pouco e além disso não há garantia de pagamento atempado, com os atrasos a serem recorrentes, o que não é motivador nem augura um futuro bom”.
O setor do vinho está a viver mutações importantes, muitas ainda com consequências por apurar, mas há receios no ar. Diz Manuel Carlos Malheiro que “os grandes poderes económicos fazem coisas que não estão dentro da lei, como é o caso da importação de vinho para a zona demarcada e fechada do Douro, pelos vistos há relatos de entrada de milhões de litros de vinho de outras regiões da Europa a preços mais baratos, nomeadamente de Castilla e La Mancha”. Em surdina consta-se que esse vinho é adquirido a menos de 20 cêntimos o litro.

Num mercado cada vez mais preenchido com marcas novas, a concorrência é feroz. Se até há meia dúzia de anos tínhamos hipermercados com meia dúzia de prateleiras com vinhos, atualmente há meia dúzia de corredores apinhados de garrafas de todos os géneros e feitios. “É o mercado a ser mercado, a iniciativa privada a potenciar um setor que tem cada vez mais competição e isso resulta em melhores produtos”, diz o viticultor Manuel Oliveira, que apesar de algum otimismo, confessa começar a ter alguma apreensão quanto ao futuro do setor.

O cenário nacional mostra que os gigantes estão a engolir os pequenos e para aqueles o setor é lucrativo. Só assim se entende o que a revista Grande Consumo, de Janeiro de 2023, divulgou acerca da Região dos Vinhos Verdes. Esta registou um crescimento de 6% nas exportações até novembro de 2022, com mais de 30 milhões de litros a chegar a 117 mercados, entre os quais se destacam os Estados Unidos, Canadá, Brasil e Alemanha, reforçando, assim, a estratégia de valorização da Denominação de Origem (DO) Vinho Verde.

Sobre isto alvitra Manuel Malheiro que “os excedentes de que tanto se fala, talvez os haja, mas sinceramente não me parece que sejam de vinhos e uvas das regiões. Falta controle, fiscalização, gente no terreno. Não é nos gabinetes que se controlam as produções, nem as entradas de vinhos de outras regiões”. E acrescenta: “digo muitas vezes em conversa com pessoas da área, alguns até académicos, que enquanto nós não soubermos valorizar e proteger o que é nosso, os outros nunca o poderão fazer”.

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