por | 7 Mar, 2024 | Opinião, VamosJuntos.PT

Tempo de Antena: Debate Político vs Comentário Político. Quem ganhará as eleições?

Estamos todos, ou assim se espera, focados nas eleições nacionais do dia 10 de Março.

A campanha eleitoral já começou, seja através dos programas eleitorais de cada partido, dos posts nas redes sociais, dos congressos, dos grandes jantares e feiras, dos mega cartazes em cada rotunda e dos frente a frente políticos, que ocupam o horário nobre das televisões nacionais.

Não restam dúvidas que perante um país, cuja a sua população está cada vez mais divorciada da classe política, e onde se augura uma noite eleitoral com uma pesada abstenção, o debate político, acessível a todos, torna-se essencial para que, cada eleitor, possa formar a sua convicção de voto, esclarecer dúvidas e conceber opiniões.

Contudo, os debates políticos tornaram-se verdadeiros sprints onde cabe tudo, menos a apresentação sustentada de ideias e planos que possam melhorar o futuro de Portugal, e dar resposta urgente a questões pilares do Estado Social, vide o problema da habitação, o estrangulamento do SNS, a elevada carga fiscal…

O que temos assistido são verdadeiras discussões pessoalizadas, em tom altivo, nem sempre necessário, baseadas no passado político, assentes na tentativa – quase sempre fracassada – de justificar o erro e não em tentar oferecer soluções de compromisso concretas e passíveis de realização.

O debate político assenta na necessidade de dar uma resposta rápida, para uma pergunta rápida, onde a demagogia ganha espaço, onde o tempo para pensar e sustentar ficou no camarim, o/a jornalista não medeia o combate, “corta” a sua evolução, comprime os assuntos essenciais, porque o tempo escasseia, Portugal está um caos, são vários os assuntos, mas já se disse: não há tempo. Acabou!

E acabou porque tem de se abrir espaço – e tempo, quase infinito e diário – para o comentário político. Para esclarecer a linguagem comportamental, o tom que foi utilizado e as respostas que foram dadas são escamoteadas, pela direita, pela esquerda, pelo centro, pelo professor, pelo Doutor, pelo técnico especialista em qualquer coisa… E ficamos assim, em comentário político, nos ataques mútuos que os comentadores, com tempo de antena, justificam, alimentam, sustentam e voltam inúmeras vezes a debater.

 E com isto, fica-se a interrogação, que é retórica, onde fica o cidadão comum que vai votar – vá votar, por-favor! – no dia 10? Formou a sua opinião no debate entre os candidatos à Assembleia da República que durou 55 minutos? Ou na opinião do intérprete de linguagem comportamental, que esteve em debate 2h30min?

Estamos cientes que vivemos numa sociedade capitalista a 5G, rápida, que precisa de informação facilmente apreendida, que não tem tempo para ler, ouvir ou escrever… Porém, está na hora de perceber que a sociedade se faz na sua Democracia, que pertence, na primeira e na última instância, ao povo. Aquele que só pode falar votando. E para votar, ele tem de pensar, tem de escolher, como se escolhe um colaborador para uma empresa, um estagiário… Tem de ouvir, tem de perceber os argumentos, tem de assistir ao debate e perceber quem tem melhores – ou piores – pretensões. O debate, na linguagem do mercado de trabalho, é a entrevista. Tem de ser esclarecedor, motivador, alegórico por vezes, feérico e intenso, sério e racional. Mas não há tempo.

Não haver tempo pode matar uma Democracia, não explorar o pensamento, mata o pensador, não ouvir o argumento, mata a crítica. São os Portugueses, os eleitores, que, internamente, têm de filtrar o debate e serem os seus principais comentadores políticos.

Porém, o que tem acontecido é assistirmos a espaços de comentários políticos que exploram mais os temas sensíveis da sociedade, do que os futuros representantes do Povo nos debates políticos.

É preciso tempo. Tempo para se fazer melhor. Tempo para convencer o cidadão a votar. Quando ouvimos o/a jornalista a perguntar ao comentador político quem ganhou o debate, as respostas são longas; todavia, nós sabemos quem perdeu o debate: a Democracia. E isso talvez seja mais grave do que os meios de comunicação social, gulosos pelas audiências, possam estar a pensar.

O 25 de abril foi construído com tempo. Façamos do processo eleitoral uma “Grândola Vila Morena” e não uma pausa longa para a publicidade.

Pedro Mariano

Blog vamosjuntos.pt

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