ONEOMANIA, UM “PALAVRÃO” QUE ESTÁ NA MODA
O vício da droga, do álcool ou do jogo são comportamentos aditivos mais ou menos visíveis e detetáveis. Além destas, há outras compulsividades comportamentais que não se manifestam aos olhos dos outros de forma tão nítida. Nem por isso, deixam de ser comportamentos disruptivos que afetam a vida pessoal, familiar e profissional das pessoas. A oneomania ou vício das compras é um destes casos e está a afetar cada vez mais pessoas. Há relatos de “casamentos destruídos”, “lares infelizes” e “vidas desgraçadas” por causa das compras desmesuradas. Nunca foi tão fácil comprar, devido ao comércio online, através das redes sociais e do marketing cada vez mais elaborado e cativante. Aliado a tudo isso está o modo de vida baseado na aparência, onde reina a máxima “mais vale parecer que ser”.

O vício pelas compras é um transtorno e um distúrbio para muitas pessoas, de vários estratos sociais e já há quem a recorra a ajuda de profissionais. Nalguns casos isso inclui internamento em instituições especializadas nas chamadas “doenças da adição”.
A vida pessoal, profissional e conjugal está a ser abalada pelo desejo compulsivo de comprar. Psicólogos e vendedoras relataram ao O Louzadense situações “muito complicadas de pessoas que perdem a noção da realidade”. Nunca foi tão acessível às pessoas comprar o que quer que seja. Qualquer produto ou serviço está ao alcance de um clique, de um telefonema, através de um terminal ou cartão, sem o comprador sair de casa.
Para ajudar a essa “festa ilusória” está “a volatilidade da moda e o constante surgimento de novos adereços e artigos”. Quem fala assim é a socióloga Marta Dinis Gomez. “E há um outro fator associado a tudo isto que leva à procura do novo, do atual, do que é in e está na berra, na moda: é o parecer-se em vez de ser, ou seja, é ilusoriamente mais prático e fácil, mais versátil e adequado a vários contextos”. Aquela especialista afiança que “Ser é mais profundo e de longa duração, requer trabalho e dedicação, ao longo da vida e não apenas em fases temporárias”.
Aquela socióloga, que estuda os comportamentos sociais ligados à moda confessa que ficou “espantada com a quantidade de pessoas que admitem, num inquérito que está a realizar, que compram com base no valor e sentido estético e não tanto na necessidade ou utilidade dos bens” e “revelam que todos os meses têm que se livrar de produtos, principalmente calçado, para obter espaço em casa para novas aquisições”.
DAS TELEVENDAS AO PÓS-COVID
O confinamento em casa durante a pandemia da COVID-19 fez despoletar de forma avassaladora a venda à distância. Este tipo de negócio veio para ficar e massificou-se.

O empresário não paga renda, não paga funcionários, reduz nos impostos e trabalha a partir de casa, com exposição numa página e transmissão em direto através do Facebook. Os pagamentos são feitos por MB WAY. Este é o modus operandi dominante no comércio virtual Além do vestuário e do calçado começam a surgir outros segmentos de mercado.
“Embora estejamos a assistir a uma massificação do problema do excesso de compras, isto não é de agora”, afirma Marta Dinis, que recorda que “o fenómeno das compras à distância começou com as televendas, que surgiram nos canais de televisão estatais após a emissão regular”.
“Há várias décadas os produtos já eram apresentados de modo aliciante, mas hoje em dia isso é ainda mais apelativo. O marketing digital evolui a um ritmo quase diário”, acrescenta.
Atualmente, “as compras entram pela casa dentro com uma facilidade nunca vista. Através das redes sociais, no computador e no telemóvel, as pessoas sentadas em suas casas ficam diante de montras vistosas e cativantes, com manequins desfilando os produtos, principalmente roupas”, explica a especialista.
“TENHO QUE LHES DIZER: PAREM”
É um tema de difícil abordagem por parte dos intervenientes e conhecedores dele. Existe ainda muito preconceito, mas também necessidade de proteger as pessoas e existe “medo de exposição, por isso é melindroso, mas ainda bem que pegam nisso, para despertar mentes e fazer ver que há aqui um problema que muita gente não está a ver em si própria”, diz a comerciante lousadense Elisa Afonso, nome fictício para a proteger a si e ás clientes.
Revela que já teve problemas nesta matéria com algumas clientes da sua loja física e virtual de pronto a vestir. “Tenho clientes que já não conseguem pagar, mas imploram para guardar e depois fazem pagamentos faseados, com recurso a vários cartões e outras vezes não conseguem mesmo pagar”, conta a empresária.
“São pessoas que não precisavam de passar por isso, mas o vício é mais forte que elas. O vício está entranhado e já aconteceu ligarem-nos a chorar, nalguns casos com distúrbios emocionais, baixa autoestima e outras características que influenciam o comportamento dessas pessoas”, explica.
“Já tive de alertar várias clientes «parem!» e dizer-lhes que roupa não é comida, não é um bem de primeira necessidade e como tal se não pode, não compra”, acrescentou.
UM PALAVRÃO QUE DIZ MUITO
A generalidade das pessoas ao lerem o palavrão “oneomania” certamente não a irá decifrar imediatamente. No entanto, bastará entrar numa qualquer rede social para se aperceber o quanto esta palavra faz parte do nosso quotidiano. Significa o ato de comprar compulsivamente, sem olhar a danos colaterais que eventualmente surgem decorrentes dessa ação.
A psicóloga Marina Ferreira, de Caíde, diz que “comprar compulsivamente pode ser visto, de uma forma simples, como o facto de não conseguir resistir ao desejo imediato de comprar, mesmo que esse comportamento lhe traga problemas de várias ordens, nomeadamente ao nível da gestão do orçamento pessoal ou familiar, levando muitas vezes à falta de recursos financeiros para sobreviver convenientemente no seu dia a dia”.

Algumas pesquisas indicam que “o ato de comprar compulsivamente (patológico), pode estar relacionado com transtornos de personalidade e doenças de foro mental graves como por exemplo o transtorno obsessivo compulsivo (TOC), cleptomania (vontade irracional de roubar) ou então transtorno bipolar, entre outros”.
A psicóloga entende que “este comportamento pode levar a uma dependência onde o individuo no seu dia a dia não consegue controlar o impulso para comprar. Ao transpor este assunto para a realidade virtual que temos, há um sério agravamento do problema, isto é, comprar está atualmente à distância de um toque no telemóvel ou no computador. As compras virtuais estão na moda, são de caráter simples e fácil e tornam este assunto tão banal que se torna difícil perceber a diferença entre o simples ato de comprar por necessidade do ato patológico de compra compulsiva”, sublinha.
“Quando numa consulta de psicologia, nos chega um caso destes, é normativo aferir que o paciente pode comprar compulsivamente pela necessidade de suprir problemas idiossincráticos associados, como por exemplo baixa autoestima, ou na tentativa de reduzir problemas relacionados com sentimentos e emoções negativas”, salienta a psicóloga.
Na linha do que tinha defendido a socióloga Marta Dinis, a psicóloga afirma que “viver numa sociedade materialista onde o ter é vincado como poder, o ato de comprar torna-se central na vida das pessoas. É um ato que trás satisfação quase instantânea e nós, comuns mortais, gostamos de nos sentir bem e felizes, nem que seja por um breve instante. É claro, que muitas vezes repetido, isto se torna adição”.
Sacos e embrulhos por abrir
Outro psicólogo clínico, Rui Lima Pereira, de Cedovezas (Pias) relata “o caso de uma senhora de 48 anos que não conseguia economizar dinheiro, pois gastava todo o seu rendimento em compras”.

No seguimento de uma consulta clínica “foi efetuado o diagnóstico do seu transtorno, reconhecimento dos estímulos que pareciam provocar os seus comportamentos inapropriados de compras e ensinada sobre como poderia resistir melhor a esses estímulos”.
Seguiram-se a busca de solução, a terapia. “foram utilizadas técnicas motivacionais e controle do estímulo. Posteriormente, foi realizada a exposição progressiva ao estímulo e a prevenção de respostas para ajudar a prevenir recaídas”.
O psicólogo explica que “o tratamento foi realizado com base na Teoria Cognitiva-comportamental durante cinco semanas, abrangendo reestruturação cognitiva, treino de habilidades e prevenção de recaída. Posteriormente a este período, foram utilizadas técnicas Psicodinâmicas para consolidar os ganhos terapêuticos, explorando conflitos subjacentes que podem ter provocado o transtorno”.
A paciente obteve resultados positivos: “não teve nenhum episódio de compras compulsivas nas 25 semanas restantes de tratamento com orientação Psicanalítica, foi capaz de renegociar suas dívidas e regular a sua vida. Importa, aqui, fazer a distinção entre consumismo e consumo compulsivo”.
Na ótica de Rui Lima Pereira, “no consumismo o sujeito compra demais, mesmo o que não precisa, desequilibrando-se financeiramente, mas apercebe-se e tenta desenvolver estratégias para o combater. No consumo compulsivo há uma insatisfação interna em que o sujeito sente a necessidade de realizar compras para reduzir o mal-estar, causando sofrimento pessoal e dificuldades financeiras extremas, não conseguindo desenvolver estratégias para combater os impulsos”. Esclarece um aspeto que lhe parece fundamental em relação ao objeto adquirido: “no consumismo o sujeito sente a alegria da posse do objeto mesmo que não necessite dele. Em contrapartida, na oneomania o sujeito interessa-se na satisfação da compra, o objeto é indiferente. Neste caso há uma inabilidade em lidar com o controle dos impulsos, sendo a sua não-satisfação causadora de um estado ansiolítico. Se sofre ou conhece que sofre deste transtorno, pode e deve procurar ajuda especializada pois o tratamento existe”.
Daí se explica a existência de sacos de compras e de embrulhos por abrir em casa de pessoas que padecem de oneomania.












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